A fauna da direita brasileira
tipos políticos antes do bolsonarismo
O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), em foto de abril de 2016 (Fonte: InfoMoney).
Uma análise publicada em 2018 propôs uma classificação dos tipos políticos da direita. Antes da eleição de Bolsonaro, o campo reacionário já era múltiplo e mais diverso do do que parecia.
Como classificamos os rostos da direita brasileira
O artigo que publicamos em 2018 reflete um esforço de análise sobre o crescimento da direita brasileira a partir do panorama observado até o ano de 2016.
De lá para cá, muita coisa mudou: novos atores surgiram, partidos foram transformados ou desapareceram, e a crise da representação se aprofundou.
Ainda assim, os tipos ideais que propusemos continuam úteis para classificar e interpretar a diversidade da direita no Brasil contemporâneo. São categorias analíticas que ajudam a compreender um fenômeno em mutação e crescimento.
Referência: Codato, A., Berlatto, F., & Bolognesi, B. (2018). Tipologia dos políticos de direita no Brasil: uma classificação empírica. Análise Social, 53(229), 870–897. https://doi.org/10.31447/as00032573.2018229.02
A multiplicidade da direita brasileira
A primeira constatação da pesquisa foi que a direita no Brasil não é uma só. Ao lado da direita tradicional — associada a partidos como o antigo PFL (depois DEM, hoje União Brasil) e o PP — observamos a emergência de novas expressões políticas:
Uma direita religiosa, impulsionada pela ampliação da bancada evangélica no Congresso;
Uma direita liberal em costumes e economia, representada por figuras do Partido Novo e de movimentos como o Livres;
E uma direita de rua, liderada por outsiders como o Movimento Brasil Livre (MBL), que ganharam projeção fora dos canais partidários convencionais.
Esse ecossistema é complementado pela influência crescente de intelectuais e influenciadores ultraconservadores nas redes sociais e no debate público.
O que mostravam os nossos dados na pré-História bolsonarista
Analisamos a composição da Câmara dos Deputados entre 1998 e 2014, cobrindo 2.565 mandatos parlamentares. Durante esse período, a direita foi, em média, a maior força legislativa. Em 2014, por exemplo, partidos classificados como de direita ocuparam 44,6% das cadeiras — o maior percentual da série histórica.
Mas a principal revelação veio da desagregação desses números: o crescimento não se deu entre os partidos tradicionais da direita, que perderam espaço, mas entre duas novas famílias políticas:
Partidos confessionais de direita (como PRB, PSC e PEN*), ligados a igrejas evangélicas, que passaram de 0,4% das cadeiras em 1998 para quase 15% em 2014;
* O Partido Republicano Brasileiro (PRB) passou a se chamar Republicanos em 2019; O Partido Social Cristão (PSC) enfrentou dificuldades para superar a cláusula de barreira nas eleições de 2022. Em 2023, o PSC foi oficialmente incorporado ao Podemos. O Partido Ecológico Nacional (PEN) mudou seu nome para Patriota em 2018. Em novembro de 2023, o Patriota se fundiu ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dando origem ao Partido Renovação Democrática (PRD).
Partidos personalistas, sem identidade ideológica clara e estruturados em torno de líderes locais, que saltaram de 0,8% para cerca de 8% no mesmo período.
Enquanto isso, a chamada direita secular tradicional* encolheu de 38% para 16% da Câmara.
*A chamada direita secular tradicional, segundo a classificação do artigo, era composta por partidos como o PFL/DEM (atualmente União Brasil, após fusão com o PSL), o PPB/PP (hoje Progressistas), o PL (Partido Liberal), o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), o PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), o PSD (Partido Social Democrático, fundado em 2011) e o PSL (Partido Social Liberal, antes de se fundir ao DEM). Esses partidos representavam o núcleo da direita não-confessional, com raízes em tradições conservadoras e ligações históricas com o regime militar ou com elites políticas estabelecidas.
Deputado Capitão Augusto (PR-SP), à direita, das bancadas da bala e da Bíblia, em 2016 (Foto: Lucio Bernardo Junior/Câmara dos Deputados).
Como podemos ler esses dados?
Utilizamos, entre outras técnicas, a análise de resíduos padronizados, uma ferramenta estatística aplicada em tabelas de contingência (como em testes de qui-quadrado) para verificar se a distribuição observada de um fenômeno difere significativamente da distribuição esperada sob uma hipótese de independência.
O resíduo padronizado é calculado subtraindo-se o valor esperado (o que seria “normal” se não houvesse associação entre as variáveis) do valor observado, e dividindo essa diferença pelo desvio padrão esperado. O resultado indica quanto um determinado grupo está acima ou abaixo do padrão, expresso em unidades de desvio padrão. Valores muito altos (acima de 1,96) ou muito baixos (abaixo de -1,96) são considerados estatisticamente significativos e sugerem que há algo “atípico” ocorrendo naquele grupo — como, por exemplo, um crescimento abrupto e fora da curva de um certo tipo de partido em uma determinada eleição.
Por exemplo, em 2014, os partidos evangélicos apresentaram um crescimento tão expressivo que seus resíduos estatísticos foram superiores a 9 — o que indica uma mudança significativa e fora do padrão. Já os partidos seculares de direita apresentaram quedas abruptas nos mesmos indicadores.
Esses resultados não são apenas números: são sinais claros de transformações estruturais no perfil da representação política da direita brasileira já há dez anos atrás.
Em 2016, Jair Bolsonaro exercia seu sétimo mandato como deputado federal. Naquele ano, ele estava filiado ao Partido Social Cristão (PSC), ao qual se juntou após deixar o PP.
Uma tipologia para entender o fenômeno
Para organizar a complexidade observada, propusemos uma classificação dos tipos sociais da direita baseada em quatro dimensões:
origem social do político (classes altas, médias ou baixas);
valores ideológicos (de liberais a ultraconservadores);
vínculo partidário (partidos grandes, pequenos ou instáveis);
visão econômica (de estatista a ultraliberal).
Com base nessas variáveis, identificamos cinco tipos ideais de políticos de direita no Brasil contemporâneo:
1. O político tradicional de direita: Ronaldo Caiado
Oriundo da elite rural, ligado a partidos grandes e históricos da direita, como o DEM (ex-PFL, ex-Arena). Conservador nos valores, defende interesses corporativos, sobretudo do agronegócio, e adota uma postura estatista seletiva — quando o Estado serve a seus aliados econômicos.
2. O político da nova direita popular: Marco Feliciano
Liderança evangélica, de origem popular. Expressa um conservadorismo moral rígido, associado à defesa da família tradicional e ao combate de pautas progressistas em costumes. Economicamente pragmático, aceita políticas sociais que beneficiem sua base.
3. O político da direita populista: Jair Bolsonaro
Com raízes no estamento militar e trajetória marcada por desprezo aos partidos, Bolsonaro reúne nacionalismo econômico, saudosismo autoritário e retórica antipolítica. Seu perfil se aproxima de líderes da nova direita populista global, que polarizam e mobilizam fora das mediações institucionais tradicionais.
4. O político da direita neoliberal: Henrique Meirelles
Executivo com carreira no setor financeiro, defensor da ortodoxia fiscal, da disciplina de mercado e da desregulamentação econômica. Pouco engajado em temas morais, atua como tecnocrata, com trânsito entre centro e direita e esquerda.
5. O político da direita libertária: Fábio Ostermann
Jovem, cosmopolita, oriundo da classe média, vinculado a partidos como o antigo Novo ou a corrente Livres do antigo PSL. Combina defesa irrestrita da liberdade individual, agenda econômica ultraliberal e desconfiança do Estado como provedor de políticas públicas. Distancia-se do conservadorismo religioso.
Plenário da Câmara dos Deputados (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil).
Para além das simplificações
O objetivo dessa tipologia não era esgotar o tema, mas oferecer uma lente mais precisa para analisar a composição e a evolução da direita brasileira tal como ela se apresentava há dez anos atrás. Os tipos são heurísticos: ajudam a organizar a observação, mesmo que, na prática, muitos políticos combinem traços de diferentes perfis.
A direita brasileira contemporânea é um mosaico em transformação — múltipla em origens, ideias, estratégias e espaços de atuação. Entender essa diversidade é essencial para analisar o presente e antecipar os embates que formatarão a política nacional nos próximos anos.




