A urna como espelho das hierarquias sociais
profissão, sexo e dinheiro nas eleições estaduais até 2014
Propraganda eleitoral em cidade brasileira na eleição de 2022 (Foto: Marcelo Camargo Agência Brasil).
Entre 2002 e 2014, sem Fundo Eleitoral, quem arrecadava melhor tinha mais chances de se eleger. Mostramos como classe e gênero organizavam o acesso ao dinheiro de campanha.
A falsa promessa de igualdade nas eleições
Num regime democrático, espera-se, idealmente, que a maioria dos candidatos disputem eleições em condições minimamente equilibradas.
Não é realista imaginar uma competição perfeitamente igual — mas não é aceitável que alguns partam com acesso privilegiado a tudo, enquanto outros mal conseguem entrar no jogo.
A teoria democrática pluralista, formulada por Robert Dahl, parte da ideia de que as desigualdades sociais não devem ser cumulativas. Diferentes grupos podem ter vantagens distintas, mas essas vantagens não deveriam se somar sempre nas mãos dos mesmos.
Foi com essa pergunta em mente que escrevi, com Márcio Carlomagno, o artigo “Profissão, sexo e dinheiro: mensuração da acumulação de desigualdades na competição eleitoral brasileira”, publicado na revista Colombia Internacional.
Queríamos saber se, na prática eleitoral brasileira, os recursos de campanha se concentravam em certos perfis de candidatos e se isso reforçava hierarquias sociais já existentes.
Referência: Carlomagno, M., & Codato, A. (2018). Profissão, sexo e dinheiro: mensuração da acumulação de desigualdades na competição eleitoral brasileira. Colombia Internacional, 95, 79–107. https://doi.org/10.7440/colombiaint95.2018.04
A questão: quem arrecada mais dinheiro nas eleições?
A hipótese central do nosso estudo é simples: no Brasil, as condições de acesso aos recursos de campanha — em especial ao financiamento eleitoral — não eram distribuídas de maneira aleatória ou meritocrática. Elas seguiam clivagens sociais. O foco empírico recaiu sobre duas dessas clivagens: a ocupação profissional e o sexo dos candidatos a deputado estadual entre 2002 e 2014.
Em vez de olharmos apenas para os eleitos, como costuma ser o padrão desse tipo de estudos, decidimos observar o conjunto de candidatos. Afinal, o viés já pode ocorrer no momento de entrada na competição. E a questão de fundo era investigar se, numa sociedade estruturalmente desigual como a brasileira, essas desigualdades também se manifestam — e se acumulam — nas disputas eleitorais.
Fila de votação na PUC-SP em outubro de 2022 (Foto: Karime Xavier/Folhapress).
Inovações metodológicas
Nosso estudo se diferenciou da literatura existente em cinco aspectos principais:
Analisamos candidatos, e não apenas eleitos;
Focamos no nível estadual, e não federal;
Priorizamos variáveis sociais, e não institucionais;
Combinamos duas variáveis sociais centrais (ocupação e sexo);
E, ao contrário da maioria dos trabalhos, tratamos o financiamento como variável a ser explicada — e não como explicação.
Foram analisadas 38.278 candidaturas a deputado estadual nas 27 unidades federativas do Brasil, em quatro eleições consecutivas.
Como medimos a desigualdade
Para medir o quanto cada candidato arrecadou em termos comparáveis — já que as eleições ocorrem em estados e anos diferentes — usamos o Índice de Sucesso de Receitas (ISR). Ele considera a proporção da arrecadação individual em relação ao total de arrecadação no estado e na eleição em questão. Assim, não importa se o candidato estava no Piauí em 2002 ou em São Paulo em 2014 — a posição relativa dentro daquele contexto é o que conta.
Além disso, rodamos testes estatísticos para ver se as diferenças nas médias de arrecadação entre grupos (por ocupação e por sexo) eram ou não significativas. Em linguagem simples: verificamos se as diferenças observadas eram grandes o suficiente para não serem explicadas pelo acaso. E usamos modelos de regressão para estimar o peso específico de cada variável no resultado final (a arrecadação).
O modelo de “disposição para a política”
Para operacionalizar a variável “ocupação”, usamos um modelo desenvolvido em pesquisa anterior, baseado em três critérios:
Flexibilidade da carreira (se o ofício permite tempo livre e autonomia);
Status social (prestígio associado à ocupação);
Afinidade com a política (proximidade com o setor público, redes e saberes políticos).
As profissões foram classificadas, com base nesses critérios, em quatro categorias de “disposição para a política”: alta, média, baixa ou nenhuma. Além disso, criamos uma quinta categoria à parte: “mandatários”, ou seja, candidatos que já eram deputados e concorriam à reeleição.
Praça interna do Anexo da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Fonte: DOI: 10.21680/2448-296X.2019v4n3ID18794).
Os principais resultados
1. Classe importa — e muito
Encontramos uma hierarquia clara: quanto maior a disposição para a política associada à profissão de origem, maior a média de arrecadação. Candidatos com alta disposição arrecadam mais do que os de média disposição, que arrecadam mais do que os de baixa. E acima de todos estão os mandatários, com arrecadações muito superiores.
Isso mostra que a origem socioprofissional não só influencia o acesso à política, mas molda diretamente a viabilidade de uma candidatura. A desigualdade social se reflete na capacidade de mobilizar recursos eleitorais.
2. Gênero importa — mas menos do que parece (até 2010)
Isoladamente, o sexo do candidato parece importar: mulheres arrecadam menos do que homens. Mas quando cruzamos o sexo com a ocupação, o panorama muda.
Entre 2002 e 2010, as diferenças de arrecadação entre homens e mulheres desaparecem quase totalmente quando se considera a mesma categoria ocupacional. Em alguns casos, mulheres arrecadam até mais que seus pares homens. Isso indica que o marcador mais forte de desigualdade na arrecadação não era o sexo, mas a posição social.
3. A virada de 2014
O padrão observado nas eleições anteriores se rompe em 2014. Pela primeira vez, há diferença significativa entre homens e mulheres mesmo dentro das mesmas categorias de ocupação. Ou seja, o fator “ser mulher” voltou a pesar negativamente, mesmo quando se controla a origem profissional.
Ainda não sabemos com precisão o que explica essa mudança. Mas ela indica um possível retrocesso nas condições de equidade de gênero na política brasileira.
Eleição em Recife, Pernambuco (Foto: Joana Suarez/Agência Brasil).
Quando classe pesa mais que gênero — e quando não
Nosso estudo confirmou, com base empírica robusta, que a política institucional brasileira reproduz desigualdades sociais estruturais.
Entre 2002 e 2010, a ocupação profissional explicava quase tudo. O sexo, isoladamente, parecia importar menos — o que sugeria que as desvantagens não se acumulavam automaticamente. Mas isso muda em 2014, quando o gênero volta a emergir como um fator de exclusão.
A hipótese de Dahl — de que uma poliarquia saudável não deve permitir a concentração cumulativa de recursos sociais — foi, em parte, confirmada. Mas os dados mais recentes nos deixam em alerta: a promessa de uma democracia mais equitativa pode estar sendo revertida.
Para quem se preocupa com a qualidade da representação política, esses achados têm implicações diretas.
Eles mostram que o campo eleitoral não é neutro e que desigualdades estruturais continuam a operar — algumas visíveis, outras nem tanto. E revelam a importância de combinar variáveis e construir modelos explicativos mais abrangentes. Caso contrário, podemos confundir sintomas com causas e reforçar diagnósticos equivocados.




