Como a ciência aprendeu a se comunicar (1 de 3)
a história do formato IMRaD
Imagine que você precisará ler 30 artigos em um mês ou dois. Alguns têm 50 páginas, outros 15. Uns começam pelos resultados, outros resumem a teoria por páginas a fio antes de chegar ao ponto que lhe interessa diretamente.
Onde diabos está a metodologia desse negócio? Em que página aparece a resposta para a pergunta de pesquisa? Aliás, tem pergunta, de fato? Nem o Ctrl + F resolve. Você precisaria ler então cada artigo integralmente, do começo ao fim, apenas para encontrar as informações que procura. E só então decidir se serão úteis ou não à sua tese, dissertação, ou o que raios estiver fazendo.
Esse era o estado da comunicação científica até meados do século XX. Não havia qualquer padrão e cada autor escrevia como bem entendia. O que levava a perda de tempo, dificuldade de comparação entre os resultados dos estudos e barreiras à circulação do conhecimento.
Ma che cazzo hai fatto?
A padronização da comunicação científica moderna emergiu, como tudo, gradualmente, impulsionada por uma necessidade crítica: a replicabilidade.
A. Bradford Hill, em “The Clinical Trial” (1952), foi fundamental ao estabelecer que a validação experimental depende de transparência total dos procedimentos. Para replicar um estudo, outros pesquisadores precisam saber exatamente: qual pergunta está sendo respondida, como os grupos de tratamento foram construídos, o que foi observado e como interpretar os resultados.
Hill, A. B. (1952). The clinical trial. British Medical Bulletin, 7(4), 278-282. https://doi.org/10.1093/oxfordjournals.bmb.a073919
Essa lógica cristalizou-se no formato IMRaD: Introduction, Methods, Results, and Discussion.
Embora reflita a sequência lógica da pergunta, essa correspondência entre modelo e pesqisa não é bem assim na prática. No mundo real, raramente qualquer pesquisa vai seguir, de maneira linear, essas 4 etapas. Todo mundo que já pesquisou sabe que resultados inesperados reformulam as perguntas iniciais, métodos são ajustados à medida que o trabalho avança (ou quando não avança) e interpretações provisórias dos achados demandam novas análises. Enfim, é uma confusão danada.
Logo, o IMRaD não descreve o processo de descoberta (caótico, iterativo, cheio de vais e vens), mas oferece uma reconstrução racional, a posteriori, que maximiza a comunicação dos resultados e a verificação dos procedimentos feitos para se chegar a eles.
Em 1972, o American National Standards Institute (ANSI) formalizou oficialmente o termo e a estrutura “IMRAD” como a melhor forma de escrever artigos científicos por meio de um comitê técnico dedicado à padronização das publicações.
Ele tornou-se a partir daí hegemônico porque resolveu um problema epistemológico fundamental: como transformar conhecimento em conhecimento publicável.
Como funciona essa estrutura de comunicação?
O IMRaD é simples e, na minha opinião, elegante. (Lembre-se: estamos na internet, logo, todo mundo tem opinião sobre tudo. Esta é a minha).
Cada seção do tal IMRaD responde a uma pergunta fundamental que qualquer leitor ou leitora faria.
A Introdução do artigo responde: por que ou por onde você começou? Qual o seu problema? Por que isso importa? A seção estabelece o contexto, mostra o que já sabemos e aponta para o que falta saber (a lacuna do conhecimento). É onde se convence o camarada de que vale a pena continuar lendo seu texto (seja porque me serve, seja porque fiquei curioso, seja porque é muito legal, apesar de totalmente distante do meu interesse imediato).
Os Métodos explicam: o que você fez? Quais são seus dados? De onde retirou esses dados? Que técnicas/métodos usou para lidar com eles? É uma espécie de receita culinária da pesquisa, com detalhes suficientes para que outro pesquisador possa, em tese, replicar o estudo (nem sempre dá, quase nunca dá, mas você precisa ser transparente sobre como fez as coisas).
Os Resultados apresentam: que resposta você obteve àquela pergunta do início? O que os dados mostraram? Esta é a seção mais objetiva, árida, burocrática. Sem interpretação, sem firulas. Meio chata até em pesquisas quantitativas. Apenas os “fatos”, geralmente acompanhados de tabelas e gráficos (em estudos quantitativos), quadros e esquemas (em estudos qualitativos).
A Discussão interpreta: o que tudo isso que você encontrou significa? Como seus achados dialogam com o conhecimento existente? Quais as implicações? É aqui que o autor recupera o fôlego para realmente analisar tudo e conectar os resultados ao debate mais amplo do campo. Essa é a parte mais difícil.
A adoção progressiva
Essa fórmula não foi aceita de imediato, claro. Um estudo analisou mais de 1.200 artigos publicados entre 1935 e 1985 em quatro das principais revistas médicas do mundo. Em 1935, nenhum artigo usava a estrutura IMRaD. Em 1950, apenas cerca de 10% a adotavam. Em 1975, o número já chegava a 80%. Em 1985, praticamente todos os artigos seguiam o formato.
Sollaci, L. B., & Pereira, M. G. (2004). The introduction, methods, results, and discussion (IMRaD) structure: A fifty-year survey. Journal of the Medical Library Association, 92(3), 364–371.
Legenda: Proportion of introduction, methods, results, and discussion (IMRAD) adoption in articles published in the British Medical Journal, JAMA, The Lancet, and the New England Journal of Medicine, 1935-1985 (n = 1,297)
A difusão foi tão bem-sucedida que o IMRaD ultrapassou a área da biomedicina e se tornou padrão em praticamente todas as disciplinas que produzem pesquisa empírica, inclusive na Ciência Política (ou na Ciência Política da corrente dominante, ressalvo, antes que me apedrejem).
Por que o formato venceu
O sucesso do IMRaD na redação científica padrão não é acidental. Ele resolve problemas muito concretos de comunicação. Facilita a leitura seletiva (leio primeiro o trecho que mais me interessa no momento), acelera a avaliação por pares (pareceristas sabem onde procurar as coisas) e reduz barreiras de entrada no campo de pesquisa (estudantes a aprendem a escrever mais rapidamente e mais ordenadamente). Quando a estrutura é previsível, o leitor sabe onde achar o que precisa. Isso não empobrece o conteúdo, ao contrário, torna possível que ele circule.
Um artigo muito bom aqui é o de Heseltine referido abaixo, pois ele formula com clareza o argumento das quatro perguntas de Bradford Hill e dá base direta à ideia de IMRaD como tecnologia de leitura seletiva.
1. Introdução → Por que você começou?
2. Métodos → O que você fez?
3. Resultados → Que resposta você obteve?
4. Discussão → O que isso significa?
· Heseltine, E. (2015). Why authors have to use a rigid format for their journal articles. Annals of the Royal College of Surgeons of England, 97(4), 249–251. https://doi.org/10.1308/003588415X14181254789808
A pergunta fundamental de Heseltine não é “como a ciência é feita?”, mas por que autores(as) precisam usar um formato rígido para seus artigos?
A resposta é: não por causa dos autores, mas por causa dos leitores.
IMRaD como tecnologia de leitura (não como teoria da ciência)
A ordem em que escrevemos um artigo não é a mesma em que ele é publicado. Em geral, começamos pelos ‘Resultados’, ‘Métodos’ e depois escrevemos ‘Discussão’ e ‘Introdução’, e só no fim título e resumo. Ou sei lá como. Às vezes achamos um documento que dá ideia para um artigo, em outras temos uma pergunta vaga, ou partimos de uma frase lida. Etc.
Isso diz algo importante: a ciência real é cheia de desvios, tentativas, frustrações e correções. Para recuperar aqui uma frase do Terry Eagleton de que gosto muito: “toda pesquisa científica requer paciência, autodisciplina e uma inesgotável capacidade de se aborrecer”. Portanto, o artigo no formato IMRaD não é um diário da pesquisa, mas uma reconstrução racional de um processo tortuoso ex-post (só depois de tudo feito).
Há quem critique essa limpeza excessiva, essa organização arbitrária, ou essa “lógica positivista”. As críticas têm seu mérito, mas erram o alvo.
O IMRaD não pretende mostrar como a ciência acontece, mas comunicar, com eficiência e objetividade, o que foi produzido. O IMRaD organiza as respostas àquelas 4 perguntas fundamentais de toda e qualquer pesquisa. Ele não produz respostas nem substitui o seu pensamento analítico ou “crítico”. (Isso aqui é polêmico e vou retomar a briga no ensaio 3 desta série).
Lições de bom senso
O IMRaD ensina algo que vai além da ciência: ideias complexas circulam melhor quando têm estruturas compreensíveis. Padronização não é engessamento.
Hoje em dia, a literatura científica é volumosa demais. Sejamos sinceros: quando se precisa ler uns 80 artigos para começar uma tese ou um livro, quase ninguém lê 80 artigos científicos linearmente, da primeira à última letra, do começo ao fim.
O IMRaD funciona, assim, como uma espécie de tecnologia de navegação pelo texto:
permite que o leitor vá direto aos métodos;
compare resultados entre artigos;
avalie rapidamente se a discussão extrapola os dados.
(Eu mesmo leio primeiro o resumo, depois os métodos, examino as figuras que sintetizam os resultados e, se dá tempo, as conclusões).
NB: Este ensaio mostrou como e por que o IMRaD se consolidou como língua franca da ciência empírica. No próximo texto, quero avançar nessa discussão, porque o IMRaD se tornou também uma forma de escrever os resumos dos artigos. E por que, apesar disso, a maioria dos pesquisadores (eu incluído!) ainda escreve resumos ruins.
Para quem escrevi este ensaio?
Este texto organiza minhas várias anotações de aula, caóticas, que fiz ao longo dos anos para cursos de redação científica aproveitando minha experiência como editor de periódico. Ele foi pensado principalmente para leitores não especializados em metodologia, interessados em ciência em geral, estudantes de graduação e início da pós-graduação e quem quer entender o que é o IMRaD e por que ele existe.
Nota de advertência de uso de IA: Este ensaio começou como um amontoado de notas de aula, exemplos, gráficos e referências, tudo em slides de Power Point, convertidos em um rascunho bem preliminar. O ChatGPT 5.2 ajudou a organizar e revisar esse material, pondo em ordem as várias ideias. O Claude Sonnet 4.5 entrou depois, no papel menos generoso de leitor crítico e exigente, encarregado de apontar incoerências, inconsistências e falhas no texto. Acredite-me, ele me criticou sem piedade. Reformulei então várias passagens.



Obrigado, Adriano. Você sempre resolve, a priori, o ou um dos principais nós do texto científico: a clareza, a objetividade e o respeito pela paciência do leitor. A ciência discute agora a linguagem dos textos científicos e a adoção da chamada linguagem simples. Isso alcançado, terá sido 80% do caminho andado.
Lembra do box de Sereviço nas matérias de cultura até bem pouco tempo atrás? Normalmente continham os W de Rudyard Kipling: Who, what, when, where, how, why. Quem, o quê, quando, onde, como e por quê.
Isso era a aula 1 do jornalismo e a técnica do lead. Trata-se de simplificar as coisas e transmitir mensagem clara ao leitor.
Você já tem tudo isso resolvido. Quero ver sacudir a linguagem científica.
Quando terminar a série, agradeço se muder mandar PDF no meu-email: jorgeeduardofm@gmail.com
Sempre seu fiel seguidor,
Abração.