Como culpar o IMRaD pelo que não deu certo no seu artigo (3 de 3)
Um texto de ciência da ciência
série ciência da ciência
Criticar o formato IMRaD, seja nos resumos, seja nos textos, virou um pequeno ritual nas Ciências Sociais. Em bancas, seminários e textos metodológicos, alguém sempre levanta a mão para dizer que o formato “empobrece” ou “engessa” a pesquisa. Que mimetiza “acriticamente” as ciências naturais. Em geral, o juízo vem acompanhado de um sentimento de distinção intelectual: nós, das Ciências Sociais, faríamos algo mais complexo, mais reflexivo, menos padronizado. Enfim, somos mais inteligentes, mais bacanas e entendemos melhor do que os outros como se deve fazer “ciência”.
O problema não é criticar o IMRaD, a estrutura ‘Introdução-Métodos-Resultados-e-Discussão’ e seu uso em resumos e em artigos acadêmicos. O problema é que a maioria dessas críticas erra o alvo. Elas atacam o formato como se ele fosse uma espécie de teoria do conhecimento, quando na verdade o IMRaD é uma tecnologia de comunicação.
Como escrevi no ensaio 1 e no ensaio 2 desta série, o IMRaD deve ser entendido como metodologia de leitura e exposição, não como teoria da ciência. Criticar o IMRaD por ele ser “artificial” é ignorar que ele foi feito para leitores que precisam ler centenas de resumos coletados em qualquer consulta ao Web of Science sobre qualquer assunto, não para narrar o processo de descoberta científica ou a ordem do pensamento.
Antes de levar todas as críticas a sério, convém verificar quais merecem esse esforço. Nem toda crítica é igual a um argumento. Algumas críticas exigem respostas, outras, apenas muita paciência.
No primeiro texto, prometi retomar a discussão sobre se o IMRaD empobrece a análise. Vamos lá.
O Ruído: desconstruindo críticas superficiais
a) “O IMRaD não reflete o processo real da pesquisa científica”.
Essa é provavelmente a crítica mais comum e a menos interessante.
Claro que o IMRaD não reflete o processo real da pesquisa. Ele nunca pretendeu fazer isso. Pesquisa empírica é confusa, cheia de desvios, hipóteses abandonadas e decisões totalmente contingentes. Três ou quatro pessoas batendo cabeça por semanas. Dados estropiados, ideias fora de ordem, explicações ad hoc. Só que artigos científicos não são diários de campo nem relatos autobiográficos do trabalho intelectual.
Exigir que o artigo reflita a confusão do processo de investigação é confundir os gêneros. O IMRaD existe justamente para transformar um processo anárquico em um relato inteligível. Criticá-lo por isso é como reclamar que um artigo não venha acompanhado de todas as notas de rodapé mentais do pesquisador(a). O objetivo é comunicar resultados, não reconstruir a experiência subjetiva dos autores(as).
b) “O IMRaD é positivista”.
Essa é uma acusação recorrente. Mas é como se o formato carregasse uma filosofia da ciência embutida.
Estruturas textuais não têm ontologia. O IMRaD não exige hipóteses, não exige causalidade forte, não exige estatística. Ele exige apenas que o autor diga por que fez o estudo que fez, o que fez, o que encontrou e o que isso significa. Só.
Há artigos etnográficos, interpretativos e críticos perfeitamente compatíveis com o IMRaD. O que não há é boa pesquisa sem clareza argumentativa. Confundir clareza com positivismo é desculpa para textos mal organizados.
Em resumo, o IMRaD responde a exigências cognitivas dos leitores, não a compromissos ontológicos ou epistemológicos.
c) “O IMRaD empobrece a teoria”.
Aqui a crítica troca causa por efeito.
O que empobrece a teoria não é o formato. O formato não pensa por ninguém. É a cultura da produção científica incessante, um artigo por mês, que transforma o IMRaD em checklist burocrático. O resultado são artigos tecnicamente corretos e intelectualmente irrelevantes.
Mas isso não é um problema do IMRaD. É um problema de avaliação acadêmica. Textos teoricamente pobres continuariam pobres mesmo sem o formato. A diferença é que, sem o IMRaD, eles seriam ainda mais difíceis de ler.
d) “O IMRaD separa artificialmente teoria e empiria”.
Essa crítica parece sofisticada, mas não é.
Nada no IMRaD impede que teoria apareça nos resultados ou que a discussão seja o espaço central de teorização. A separação entre seções é editorial, não epistemológica. Ela organiza o texto. Não pretende definir como o conhecimento é produzido.
Se a teoria emerge da análise empírica, ótimo. O desafio é comunicar isso de forma inteligível. O IMRaD não bloqueia esse movimento. Ele apenas obriga o autor a explicitar onde e como ele acontece. Se eu não consigo localizar rapidamente o problema, o método, os resultados e o significado da coisa toda no final das contas, o artigo falhou, independentemente da tradição teórica que o camarada abraça ou venera.
A Reflexão: críticas que importam para a ciência
Isso posto, e se você chegou até aqui, é porque compartilha comigo o fascínio por essa discussão absolutamente nerd... Parabéns. Então vejamos as críticas que merecem ser levadas em consideração.
a) “O IMRaD não serve para todo tipo de texto”.
Essa crítica é correta, simples e frequentemente ignorada por fanáticos da redação científica que exigem o uso dessa fórmula a todo custo.
O IMRaD é um formato para artigos empíricos. Ele não foi feito para ensaios teóricos, textos normativos, estudos históricos ou tratados sobre conceitos. Forçá-lo nesses casos produz textos com seções preenchidas por obrigação, não por necessidade analítica, em que a forma engole o argumento.
O problema não é o IMRaD. É usá-lo onde ele não se aplica.
b) “O IMRaD pode esconder decisões analíticas importantes”.
Aqui há um ponto realmente crítico dos críticos.
Ao apresentar a pesquisa como uma sequência limpa e racional, o formato pode invisibilizar escolhas interpretativas cruciais: redefinições de categorias, mudanças de estratégia, exclusões de dados.
Isso não é uma falha inevitável, mas um risco estrutural. Cabe ao autor decidir se explicita essas decisões nos métodos ou na discussão do seu artigo. Quando isso não acontece, o leitor perde informação relevante.
Essa crítica não pede o abandono do IMRaD, mas seu uso mais reflexivo e produtivo.
c) “O IMRaD virou critério implícito de exclusão de artigos que não se enquadram”.
Esta é talvez a crítica mais relevante politicamente.
Em muitos periódicos, especialmente nos internacionais, o IMRaD funciona como filtro simbólico. Textos que não “soam” como IMRaD são percebidos como menos científicos, independentemente de sua qualidade. Um artigo sobre teoria do reconhecimento, escrito com rigor, mas sem a estrutura IMRaD, tem mais dificuldade de passar por peer review em periódicos internacionais do que um estudo empírico mediano, com conclusões triviais, só que formatado corretamente.
Isso afeta desigualmente tradições teóricas, estilos nacionais e pesquisadores em início de carreira. O problema não é o formato em si, mas sua naturalização como sinônimo de ciência bem feita.
Mas aqui a crítica não é metodológica, e sim institucional.
O ponto cego do debate
Parte das críticas ao IMRaD servem, na prática, para evitar uma pergunta incômoda: o texto está claro? Os resultados estão explícitos? O leitor entenderá o que foi feito e por quê?
Atacar a forma é mais fácil do que enfrentar falhas de escrita, argumentação ou análise. Em muitos casos, a crítica ao modelo IMRaD funciona como retórica de defesa, não como reflexão epistemológica. Como preservação da “tradição” das ciências sociais, ou melhor, a crença de que essa tradição é igual a textos obscuros, pedantes e sem foco real.
Em defesa de um uso consciente do IMRaD ou a forma a serviço do argumento
O uso da estrutura IMRaD em resumos e artigos não é uma virtude em si. Tampouco é um inimigo da Ciência Social. Ele é uma ferramenta. E ferramentas exigem alguma competência para serem usadas bem.
Um uso consciente do IMRaD envolve três coisas simples:
· saber quando usá-lo (artigos empíricos, quali ou quanti, ou de métodos mistos);
· saber quando não o usar, se não couber (ensaios de interpretação, reflexões puramente teóricas, artigos normativos e de teoria política);
· e saber que seguir uma estrutura não dispensa pensar nos problemas científicos implicados na sua pesquisa.
As Ciências Sociais não precisam de menos IMRaD. Precisam de menos automatismo ou fixação em qualquer forma de escrita, graças à aquisição de mais consciência metodológica. O problema nunca foi a forma. Sempre foi o uso preguiçoso de nenhuma forma como se isso fosse uma virtude de pensadores “críticos”.
Para quem escrevi este ensaio?
Este texto organiza minhas várias notas de aula, caóticas, que fiz ao longo dos anos para cursos de redação científica. Ele foi pensado principalmente para pós-graduandos, docentes jovens e pesquisadores em geral, autores que já escrevem artigos, mas sentem que algo não funciona bem, que não consegue comunicar direito suas ideias, para quem atua como editor, parecerista ou orientador, e leitores interessados nos bastidores da escrita científica.
Nota de advertência de uso de IA: Este ensaio começou como um amontoado de anotações para aulas, exemplos, gráficos, esquemas e referências, tudo em slides de Power Point, convertidos em um rascunho bem preliminar. O ChatGPT 5.2 ajudou a organizar e revisar esse material, pondo em ordem as ideias principais. O Claude Sonnet 4.5 entrou depois, no papel menos generoso de leitor crítico, encarregado de apontar incoerências, inconsistências e falhas no argumento. Acredite-me, ele me criticou sem piedade. Reformulei então várias passagens. E revisei duas vezes.


Ótimo artigo. Quando você diz que o IMRaD é feito para quem quer ler centenas de resumos, acho que esse é um aspecto importante para explicar a emergência desse formato como dominante. Parte da academia brasileira ainda é artesanal em todas as fases da pesquisa (da orientação à produção de artigos). A academia gringa mistura aspectos artesanais (como orientação) com semi-industriais, ou pelo menos de manufatura (divisão de trabalho com RAs, artigos coletivos etc.). Lá fora eles fazem leitura superficial de artigos, e lêem em profundidade só os cruciais para a pesquisa. E um formato padrão como esse ajuda esse tipo de leitura.
"Há artigos etnográficos, interpretativos e críticos perfeitamente compatíveis com o IMRaD. O que não há é boa pesquisa sem clareza argumentativa. Confundir clareza com positivismo é desculpa para textos mal organizados."
Seria abusar muito pedir se você teria um desses pra me indicar? Hahaha, tenho muito interesse no tema.