Dez erros recorrentes em artigos acadêmicos
e um 11º. ponto muito pessoal
Ao longo de mais de três décadas à frente da Revista de Sociologia e Política, lidei com centenas de submissões e redigi muitos pareceres para artigos da Revista e de outros periódicos. Principalmente de outros.
Além disso, sempre estive do outro lado da mesa: tive dúzia de artigos recusados, recebi decisões do tipo “revise & resubmit” (refaça tudo e mande de novo porque isso aí está ruim pra chuchu), e eu desisti porque de fato estava muito ruim. Recebi pareceres duros, às vezes por pura má vontade do avaliador, mas na grande maioria das vezes bastante corretos. Rejeição é parte constitutiva da rotina acadêmica (e da vida em geral. Acostumemo-nos).
“Untitled,” by Alice Trumbull Mason, 1939, oil on canvas, 30 x 40 in. Washburn Gallery
O caso é que, com mais frequência do que se imagina, a rejeição ao seu/meu/nosso artigo decorre menos de desacordos substantivos com o argumento por parte do/da parecerista ou do/da editora e mais por falhas relativamente previsíveis de enquadramento do tema, desenho da pesquisa e escrita dos resultados.
Abaixo, sistematizo dez razões recorrentes de por que artigos científicos são comumente rejeitados e ilustro com exemplos de ciência política. Se você é de outra área, pense nos seus próprios exemplos. Vale pra você também.
“Falar com quem? Sobre o quê? E por quê?”
(problemas de enquadramento e de relevância)
O seu manuscrito não se alinha ao estilo do periódico.
O tema, o tipo de pergunta, o padrão de evidência e o estilo de escrita não conversam em nada com a linha editorial daquele periódico.
Pesquise o que a revista publicou nos últimos três anos, leia os sumários, olhe o currículo do(a) editor(a), consulte sites especializados em direcionar seu artigo para periódicos a partir do resumo. Baixe os sumários do último ano, jogue numa IA, suba seu artigo em PDF e pergunte se ele se encaixaria.
Pesquise inclusive se o periódico aceita submissões espontâneas. Uma vez submeti um artigo à New Left Review e recebi como resposta, educada, objetiva e algo irônica, uma mensagem do tipo: “não nos procure, nós procuraremos você”. Só aceitamos artigos que nós mesmo tenhamos encomendado. Ou seja: fique na sua.
Exemplos: Um estudo prosopográfico sobre vereadores de uma capital enviado a um journal de teoria normativa (como Lua Nova, por exemplo); um paper que usa regressão sobre voto no Brasil submetido a uma revista focada em História (Estudos Históricos).
O problema de pesquisa não tem relevância para além do caso em si mesmo.
O texto é interessantíssimo, mas não diz por que isso importa para debates mais amplos.
Exemplos: O artigo faz uma análise detalhada da dinâmica burocrática interna de uma única secretaria municipal sem conexão com literatura sobre a noção de “capacidade estatal”. O manuscrito faz um estudo profundo de uma única eleição local sem qualquer diálogo com teorias de comportamento eleitoral ou competição partidária.
Aproveito este ponto para desenvolvê-lo em outra direção.
É difícil publicar em revista gringa de alto impacto. É difícil publicar quando o artigo é “só” sobre o Brasil. Em geral, esse tipo de revista prefere estudos comparados com 120 países em que o Brasil é um dos casos.
Mas é difícil também quando não conseguimos mostrar por que estudar o Brasil, por que estudar o Brasil serve para ilustrar um problema mais geral. Por exemplo: sobre o problema “x”, o Brasil é um caso paradigmático, ou um caso dramático, ou um caso excepcional etc.
A contribuição original do artigo à sua área de conhecimento não é evidente.
Falta uma formulação direta sobre três coisas fundamentais: o que a literatura já sabe (estado da arte), o que ainda não sabe (lacuna) e o que este artigo faz de novo, de original que mereça ser publicado.
Exemplos: O artigo descreve o perfil ocupacional de deputados federais em seis legislaturas consecutivas: são x advogados, y trabalhadores e z indivíduos que se declaram “políticos profissionais”. OK. So what? E daí?
Esses dados precisam se justificar, é preciso dizer se se está testando teorias de profissionalização, problemas de recrutamento político ou medindo desigualdade de representação. Um artigo não serve para apresentar dados inéditos. Ele precisa explicitar o que esses dados querem dizer e o que eles permitem revisar na literatura.
Alice Trumbull Mason. Staff, Distaff, and Rod, 1952. oil on canvas, 34 3/8 x 42 in.
“O que exatamente você quer explicar? Com que evidências? E com quais conceitos?”
(falhas de teoria, inferência e método)
Há muitas perguntas de pesquisa ao mesmo tempo.
O artigo tenta responder simultaneamente “o que acontece”, “por que acontece assim” e “com que efeitos sobre determinado fenômeno”, sem hierarquizar seus objetivos, sem delimitar a unidade de análise (objeto).
A regra de ouro é: um assunto por artigo. Apenas um.
Exemplos: O texto pergunta simultaneamente “quem são os parlamentares?”, “como se comportam?” e “por que se comportam assim?”, sem definir unidade de análise (indivíduos, partidos, legislaturas) nem priorizar um nível explicativo.
O argumento do artigo excede (e muito) o desenho empírico.
É preciso delimitar explicitamente até onde suas conclusões podem ir em termos de unidades analisadas, tempo, espaço e tipo de relação explicativa. O que o seu artigo permite dizer e o que não permite.
Sobre quem ou sobre o que você está concluindo? Indivíduos (eleitores), elites (deputados), organizações (partidos) ou países.
Para quais contextos suas conclusões valem? Para o Brasil entre 1998 e 2022? Apenas para municípios com mais de 100 mil habitantes? Para a América Latina na fase pós-redemocratização?
Você pretende descrever, associar ou explicar causalmente a relação entre dois fenômenos? Por exemplo: “deputados empresários têm maior taxa de reeleição” (encontre uma associação entre perfil e sucesso). Isso é diferente de “ser empresário aumenta a x% a probabilidade de reeleição” (há aqui uma relação causal efetivamente medida).
Se você analisa políticos brasileiros que serviram na Câmara dos Deputados entre 1998 e 2022, então não pode, mon ami, escrever suas conclusões como se valessem para as “elites políticas” em geral. Se você usa dados observacionais (descreve fenômenos), então não pode formular conclusões causais no sentido específico do termo.
Exemplo: O artigo afirma, com base em dados observacionais simples, que “redes sociais causaram a ascensão da direita em 2018”, em tratar viés de seleção dos casos (i.e., indivíduos mais engajados politicamente já eram mais propensos a usar redes), sem pensar em causalidade reversa (i.e., a ascensão da direita pode ter aumentado o uso político das redes, e não o contrário) ou sem se dar conta de variáveis omitidas (i.e., fatores não observados, como crise econômica e seus efeitos ou rejeição a partidos entre a grande maioria dos eleitores, que afetam simultaneamente uso de redes e voto).
Os conceitos centrais do artigo não são nem definidos, nem operacionalizados.
O conceito central do artigo (não é prudente ter mais de um) fica apenas no nível retórico. Ele é usado como uma palavra descritiva, sem definição analítica (i.e., o que exatamente o conceito inclui e que fenômenos ele exclui), critérios de fronteira (i.e., como distinguir empiricamente casos que pertencem ou não àquilo que o conceito descreve) e operacionalização compatível (i.e., como traduzir o conceito em indicadores observáveis e mensuráveis coerentes com a definição analítica).
Exemplos: A noção de “populismo” é usada para rotular candidatos sem critérios claros. O que foi analisado? Discurso? Estratégia de campanha? Ideologia? O conceito de “capacidade estatal” aparece como sinônimo de “eficiência administrativa” e sem indicadores definidos. Ou “polarização” é “o” assunto do artigo, mas não há medidas de distância (ideológica, afetiva, discursiva).
Os dados e os procedimentos para lidar com os dados não estão suficientemente explicados.
Não fica claro como casos analisados no artigo foram escolhidos, como o banco de dados foi construído, quais regras de codificação foram usadas, o que foi excluído como informação e por quê, e como foram tratados incertezas e erros de medida. Em pesquisas qualitativas, isso vira “fiz 10 entrevistas com tais pessoas” sem explicar amostragem, roteiro, saturação.
Exemplos: O artigo usa “dados do TSE” sem explicar critérios de recodificação de ocupações. O texto menciona entrevistas com parlamentares sem informar como foi feita a seleção dos entrevistados. Ou aplica regressão sem especificar variáveis de controle ou tratamento de outliers (casos desviantes).
Alice Trumbull Mason. Pale Column, 1956. oil on canvas, 15 x 22 in. Whitney Museum of American Art, New York.
“Qual é o ponto? O texto chega lá? E a escrita ajuda ou atrapalha?”
(falhas de foco, estrutura e escrita)
O artigo acumula ideias demais, dados demais, autores demais e perde foco.
Há excesso de literatura (30 artigos são citados na revisão), 9 hipóteses são testadas no mesmo artigo, o modelo lida com 55 variáveis e há na parte de resultados 18 tabelas (nada disso é fictício, OK? Já vi tabela em nota de rodapé), mas não há um fio condutor.
Este problema é irmão daquele problema 4 (Há muitas perguntas de pesquisa ao mesmo tempo a serem respondidas). Aqui há muita, muita coisa de tudo ao mesmo tempo. São 5 artigos em 1.
Exemplos: O texto, para provar seu ponto, combina análise de discurso, survey e regressão multinível no mesmo artigo, sem inclusive integrar os resultados. Ele relata tudo, minuciosamente. Para quê? Não sabemos mais porque o camarada se perdeu em meio a tantos dados e achados. Ou o artigo tenta dialogar com três literaturas diferentes ao mesmo tempo (populismo, discurso antielites e comportamento eleitoral) sem desenvolver adequadamente nenhuma delas, mas citando 15 artigos de cada.
A estrutura do artigo não conduz a leitura em direção ao argumento principal.
As seções do artigo são mal nomeadas ou nomeadas de forma preguiçosa e burocrática (“revisão”, “dados”, “discussão”). A ordem em que as informações aparecem é pouco lógica, a revisão bibliográfica, que é apenas um inventário de tudo o que se leu na vida até agora, aparece no lugar da Introdução e o objetivo do artigo vem na página 7 (já fiz isso na juventude). Ou seja, não há uma indicação clara que o artigo parte do problema, depois trata-o teoricamente, apresenta novas evidências, interpreta essas evidências e destaca tanto sua contribuição quanto os limites do artigo em questão.
Exemplos: Há uma longuíssima revisão bibliográfica sobre democracia sem conexão direta com a hipótese a ser testada no artigo. Há uma seção de resultados, que apenas descreve tabelas sem interpretá-las à luz da teoria, e não há em lugar algum uma seção de discussão/interpretação dessas maravilhosas tabelas. Na conclusão, o camarada introduz argumentos novos, autores diferentes, ideias sensacionais que caberiam em mais dois artigos ao invés de fechar o raciocínio deste artigo.
A escrita é prolixa, erudita, exibicionista, e não leva a lugar algum.
Há palavras demais (artigos com 18 mil palavras), há citações demais a autores “obrigatórios” (nem todo artigo brasileiro de ciência política precisa citar Abranches, 1988...), há referências sem qualquer função analítica, estão lá apenas para provar que o autor leu artigos de 2026 em 2026, há uma conclusão que não retorna à pergunta inicial, nem explicita o que muda no estado do conhecimento com este artigo ou o que fazer com isso que foi encontrado.
Exemplos: Começar a revisão da literatura com a famosa sequência de Dahl, Schumpeter, Sartori e Przeworski sem conectar diretamente com a hipótese a ser testada no artigo, empilhar referências sobre “populismo” (Mudde, Laclau, Rosanvallon) sem dizer qual definição está sendo adotada e por quê. Encerrar o artigo com um achado factual, repetindo pela milésima vez que “houve aumento da direita entre 2018 e 2022” sem discutir as implicações disso para a competição partidária ou a teoria da representação política, ou não indicar como os achados do artigo afetam os debates sobre personalização do voto ou profissionalização política. Há artigos com tabelas extensas no corpo do texto que poderiam ir muito bem para o apêndice. Não relacionar os achados empíricos ao debate teórico previamente apresentado. Fazer afirmações normativas (“há um grande déficit democrático”) em um texto que se pretende apenas descritivo.
Alice Trumbull Mason. Dark Pressure, 1963, oil on canvas, 24 x 44 in.
Ao contrário da mitologia, editoras e editores de periódicos são seres humanos. Serem humanos possuem sentimentos. E idiossincrasias. Procure evitar ferir a sensibilidade desses seres com 4 coisas que irritam:
11. Coisas que irritam.
Usar palavras em inglês desnecessariamente: natural experiment, selection bias, lame duck, agenda-setting, checks and balances, critical juncture, principal-agent problem, collective action. A cada vez, uma estrelinha se apaga no céu. O vocabulário da língua portuguesa (incluindo variações lexicais, termos especializados e neologismos) tem 300.000 palavras e só o Houaiss, 228 mil entradas. Não escreva central bank, é Banco Central pelamordedeus, não precisa falar central banking, você não vai ser proibido de entrar nos EUA se escrever “atuação dos bancos centrais”.
Repetir os mesmíssimos resultados da tabela no texto e ainda acrescentar um gráfico sem qualquer ganho interpretativo. Ou gráfico (de preferência), ou tabela. E interprete os dados. Todo mundo consegue ler as % da tabela.
Escrever uma seção de “teoria” (no lugar de uma revisão de literatura apropriada ao tema do artigo), que vira um histórico do conceito de democracia sem sequer terminar com hipóteses testáveis. A menos que seu artigo seja sobre isso, o conceito de democracia, mas se for isso, garanta que você falará coisas novas. Por favor. Boa sorte.
Citar autores sem qualquer função analítica. Autores (Bourdieu, Foucault, Young) aparecem no artigo como fiadores, como uma caução simbólica, mas que não entram no argumento, cujas teorias não sustentam as hipóteses. Citação não é prova de erudição, é só um instrumento para dar o devido crédito a uma ideia ou ao modelo do qual se parte e que informa o seu problema.
Eu também ainda cometo vários erros dos listados acima. Também tenho artigos rejeitados preliminarmente (ou no ‘desk review’...). Recebemos uma recusa por e-mail no dia 24 de dezembro de 2025, à noite, em pleno amigo secreto da família. Tudo isso pra dizer que é bem difícil escrever um bom artigo, passar por pareceristas de bons periódicos, o texto ser modificado, aceito e enfim publicado.
Sobre a artista: Alice Trumbull Mason (1904–1971) foi uma das pioneiras da abstração nos Estados Unidos, atuando quando o modernismo abstrato ainda era marginal no circuito institucional. Fundou, junto com outros colegas, a American Abstract Artists, uma organização para defender a legitimidade estética e pública da arte não figurativa em exposições e no sistema de museus e galerias. https://www.ematm.org/
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Simples, um soco de boxe de alta precisão. Estou nocauteado pela objetividade e delicadeza do texto…..
Precisava ler isso.