É que o de cima sobe e o de baixo desce:o efeito Mateus na ciência
“Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.”
Esta passagem do Evangelho de Mateus, capítulo 13, versículo 12, inspirou um dos conceitos mais poderosos para entender como funciona a desigualdade no mundo científico e, por extensão, no mundo social: o “Efeito Mateus”.
Em resumo: o sistema de recompensas na ciência favorece desproporcionalmente cientistas já estabelecidos.
Harriet A. Zuckerman | Department of Sociology | Professor Emerita at Columbia University
A descoberta de Merton e sua ironia
Em 1968, o sociólogo norte-americano Robert K. Merton cunhou o termo “Efeito Mateus” ao observar um padrão recorrente no mundo científico: pesquisadores já famosos recebiam crédito desproporcional por suas descobertas, mesmo quando colaboravam com cientistas menos conhecidos em trabalhos de qualidade similar.
Trabalho original de Merton:
Merton, R. K. (1968). The Matthew effect in science: The reward and communication systems of science are considered. Science, 159(3810), 56–63. https://doi.org/10.1126/science.159.3810.56
Merton percebeu que quando um artigo científico era publicado por múltiplos autores, o reconhecimento tendia a fluir automaticamente para o pesquisador mais conhecido, independentemente de sua contribuição real. Era como se a fama anterior funcionasse como um ímã para mais fama.
A própria formulação do conceito ilustra o fenômeno de forma irônica: embora Harriet Zuckerman, esposa e colaboradora de Merton, tenha contribuído significativamente para o desenvolvimento da teoria, é o nome dele que ficou associado à descoberta. Um exemplo perfeito do Efeito Mateus operando na criação de sua própria definição.
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As bases sociais e psicológicas
Por que isso acontece?
O mecanismo opera através de bases tanto psicológicas quanto estruturais.
Reputação funciona como um atalho cognitivo para julgar qualidade. Se o nome é conhecido, presume-se que a qualidade também seja. Trabalhos de cientistas conhecidos recebem mais atenção e escrutínio favorável. Além disso, há um ponto pouco destacado na descoberta de Merton: o reconhecimento aumenta a disposição para abordar problemas arriscados e inovadores.
Estruturalmente, o sistema hierárquico de prestígio na comunidade científica, combinado com “gatekeepers” (editores, financiadores e avaliadores) que tendem a favorecer nomes já estabelecidos, cria um ambiente onde recursos e talentos se acumulam em centros de excelência, perpetuando o ciclo.
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Como esse destino evangélico funciona na prática
O Efeito Mateus opera através de um ciclo de retroalimentação positiva.
Cientistas que recebem reconhecimento inicial atraem mais financiamento, o que permite mais pesquisas, gerando mais publicações e citações, aumentando ainda mais sua visibilidade. É um círculo virtuoso para quem está dentro dele, e vicioso para quem fica de fora.
Estudos bibliométricos demonstram isso numericamente.
Laureados com o Prêmio Nobel, por exemplo, veem suas citações dispararem não apenas após receberem o prêmio, mas suas publicações anteriores também passam a ser mais citadas retroativamente (Price, 1976). A qualidade intrínseca do trabalho permanece a mesma, mas a percepção de valor se amplifica dramaticamente (Larivière & Gingras, 2010).
Pesquisadores de universidades prestigiosas recebem mais citações que colegas de instituições menos conhecidas, mesmo para trabalhos de qualidade comparável. A afiliação institucional funciona como um “selo de qualidade” que influencia como o trabalho é percebido e avaliado pelos pares (Long, Allison, McGinnis, 1979).
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Além da Ciência: um fenômeno social universal
A força do conceito está em sua capacidade de transcender o mundo acadêmico e se manifestar em praticamente todas as esferas da vida social.
Na Educação, Keith Stanovich identificou como dificuldades iniciais na alfabetização geram um ciclo vicioso: menos leitura leva a menor desenvolvimento de vocabulário, que impacta negativamente todas as disciplinas, afetando toda a trajetória educacional.
Na Economia, o princípio dos “ricos ficam mais ricos” opera através de múltiplos mecanismos: maior facilidade de acesso a crédito com melhores condições, redes de contatos privilegiadas, propriedades em áreas valorizadas que se valorizam mais rapidamente, e capacidade de diversificação com acesso a produtos financeiros exclusivos para grandes investidores.
No mundo digital, algoritmos de recomendação amplificam dramaticamente o fenômeno. Conteúdos que já recebem engajamento ganham mais visibilidade nas plataformas, atraindo mais visualizações e interações, em um ciclo que pode transformar pequenas diferenças iniciais em disparidades enormes de alcance e monetização.
A política do reconhecimento na arena política
Na arena política, o Efeito Mateus se manifesta através da vantagem do incumbente: políticos já no poder têm acesso privilegiado à mídia, maior facilidade para atrair financiamento e estrutura organizacional já estabelecida por seus partidos. Dados revelam que incumbentes nos EUA têm taxas de reeleição superiores a 90%, demonstrando como vantagens iniciais tendem a se perpetuarem.
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O lado invisível: o Efeito Matilda
Uma variante crucial do fenômeno, identificada por Margaret Rossiter, é o Efeito Matilda.
Nomeado em homenagem à sufragista Matilda Joslyn Gage, ele descreve como contribuições científicas de mulheres são sistematicamente subestimadas e atribuídas a colegas homens. Esse efeito demonstra como a vantagem acumulada interage com outras formas de desigualdade estrutural, amplificando exclusões baseadas em gênero, raça ou origem geográfica.
Por que isso importa: eficiência versus equidade
O Efeito Mateus levanta questões fundamentais sobre justiça e eficiência em nossas sociedades.
Por um lado, pode acelerar a comunicação científica, permitir foco em trabalhos de qualidade comprovada, e incentivar produtividade contínua alta.
Por outro, pode perpetuar desigualdades, subutilizar talentos, reforçar vieses e criar barreiras à inovação vinda da periferia do sistema.
O problema não é apenas ético; é também de eficiência coletiva. Quando vozes novas ficam sem espaço e talentos emergentes são ofuscados, perde-se diversidade, inovação e pluralidade de perspectivas.
O sistema de recompensas científicas (materiais e simbólicas) pode falhar em identificar e aproveitar contribuições valiosas simplesmente porque elas vêm de fontes ainda não reconhecidas.
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Podemos mitigar o efeito de Merton?
Compreender esses mecanismos é crucial para desenvolver sistemas mais equitativos. Algumas estratégias incluem avaliações “cegas” (sem identificação prévia do autor ou afiliação institucional), políticas de ação afirmativa e inclusão, incentivos específicos para novos entrantes, e maior transparência sobre como funcionam os processos de seleção e reconhecimento.
Políticas de financiamento equilibradas podem distribuir recursos também para jovens pesquisadores, enquanto limites à concentração de recursos e poder podem impedir que vantagens se tornem intransponíveis.
A conscientização sobre o fenômeno (e mesmo o nome do fenômeno) já representa um primeiro passo importante.
*Este post condensa uma aula (longa, técnica e pouco divertida) no Curso de Extensão “Circulação Científica: Teoria, métodos e estudos de caso” no Instituto de Estudos Avançados e Convergentes/Grupo de Estudo e Pesquisa SciCi - Science in Circulation na Unifesp em junho de 2025.
Aqui estão as referências bibliográficas principais:
Harriet Zuckerman (colaboradora de Merton): Zuckerman, Harriet A. (1977). Scientific Elite: Nobel Laureates in the United States. New York: Free Press.
Trabalho de Rossiter sobre o Efeito Matilda:
Rossiter, Margaret W. (1993). The Matthew Matilda Effect in Science. Social Studies of Science, 23(2), 325-341. DOI: 10.1177/030631293023002004
Outras referências relevantes:
Larivière, V., & Gingras, Y. (2010). The impact factor's Matthew Effect: A natural experiment in bibliometrics. Journal of the American Society for Information Science and Technology, 61(2), 424-427.
Long, J. S., Allison, P. D., & McGinnis, R. (1979). Entrance into the academic career. American Sociological Review, 44(5), 816-830.
Price, D. J. de S. (1976). A general theory of bibliometric and other cumulative advantage processes. Journal of the American Society for Information Science, 27(5), 292-306.
Para saber mais:
Explorando Métodos Bibliométricos: Análise de Citações em Pesquisa (em inglês)








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