IA e Ciência Política: o elefante na sala dos periódicos
Como editorias de periódicos científicos estão lidando com a revolução silenciosa na produção acadêmica.
No dia 8 de outubro a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) realizou um debate sobre “Inteligência Artificial na pesquisa em Ciência Política: o que dizem os editores”. Este texto e o seguinte (Quantos bons artigos já rejeitamos por má redação?) surgiram das questões que me fiz (e procurei responder aqui) para participar deste evento.
Isao Tomita, Pictures At An Exhibition. Album Cover
O que mudou nos últimos 18 meses
Desde o lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, a produção acadêmica em Ciência Política atravessa uma transformação profunda e silenciosa. A IA já está nos artigos que você lê, mesmo quando ninguém declara. Diferentemente de áreas como Ciência da Computação ou Medicina, onde o debate parece ser mais explícito, na Ciência Política ainda operamos em uma espécie de zona cinzenta e não declarada. Até onde eu sei.
Mas alguns periódicos começaram a estabelecer diretrizes mais claras.
O American Journal of Political Science (AJPS) publicou sua política de IA em junho de 2024, exigindo que autores “divulguem o uso de qualquer ferramenta de inteligência artificial” no momento da submissão “no texto ou em notas de rodapé do manuscrito”. O uso de IA, depreendi do documento, é tolerado em edição de texto, elaboração de pré‑análises, geração de códigos para replicação ou testes estatísticos. O AJPS adverte que “autores(as) devem evitar usar inteligência artificial para escrever o manuscrito ou elementos substanciais do manuscrito, como a revisão de literatura”. Pareceristas não podem usar IA para avaliar diretamente os artigos nem redigir seus pareceres.
O American Political Science Review (APSR) adotou abordagem similar através das diretrizes da Cambridge University Press (2023): “não consideramos ferramentas de inteligência artificial (IA) como atendendo aos requisitos de responsabilidade de autoria” e exigindo que qualquer uso seja “declarado e descrito completamente aos leitores”. Qualquer uso de IA deve ser confessado de forma clara, assim como ocorre com outros softwares e metodologias. Os autores continuam responsáveis pela precisão, integridade e originalidade de seus artigos, incluindo as partes nas quais a IA foi utilizada.
O British Journal of Political Science, seguindo as mesmas diretrizes Cambridge, estabelece a transparência como princípio fundamental: ferramentas de IA usadas “para gerar texto dentro do manuscrito devem ser acompanhadas por uma descrição completa do processo utilizado” e “declaradas nos agradecimentos”. A IA pode ser usada para apoio linguístico ou gerenciamento de referências, mas não pode substituir a contribuição intelectual humana.
O World Politics, publicado pela Johns Hopkins University Press, vai além: “desencoraja submissões de usar IA para auxiliar na fase de escrita do artigo, uma vez que artigos ‘coautorados’ por ferramentas de IA não serão aceitos para publicação” conforme a política da editora. O periódico permite uso de IA para tradução, revisão, formatação de texto, limpeza de código ou geração de gráficos, mas qualquer uso deve ser declarado claramente aos editores, revisores e leitores. É preciso informar qual ferramenta foi usada e de que modo.
Conudo, a maioria dos periódicos de Humanidades ainda trabalha (em outubro de 2025) com políticas vagas ou inexistentes, deixando autores, autoras e pareceristas sem uma orientação clara.
As vantagens são reais (e tentadoras)
Seria desonesto não reconhecer os (enormes) benefícios das IAs. Um estudo sobre regimes autoritários na Ásia Central pode contar com IA para processar centenas de documentos em russo ou cazaque, identificando padrões que consumiriam meses para mapear manualmente (e exigiriam da analista conhecer essas línguas). Uma pesquisadora consegue, por exemplo, sintetizar 15 anos de debates parlamentares brasileiros em horas, não em meses.
Para revisões de literatura, a IA é transformadora. Um doutorando pode agora identificar trabalhos relevantes em alemão e francês sem dominar completamente essas línguas. Isso democratiza o acesso a tradições intelectuais não-anglófonas, algo historicamente problemático em nossa disciplina.
A tradução técnica é outro benefício inegável. Pesquisadores latino-americanos, africanos e asiáticos enfrentam uma barreira estrutural ao tentar publicar em inglês nos periódicos de maior impacto. Se a IA pode nivelar esse campo de jogo, isso não seria desejável?
Jean Shrimpton, Space Woman, 1965.
Mas os riscos são igualmente importantes
O primeiro problema é a “homogeneização epistêmica”. A Ciência Política, ao menos em teoria, valoriza “vozes” diferentes: você reconhece imediatamente um artigo de teoria democrática da escola de Yale (Dahl), ou uma análise de comportamento eleitoral da tradição de Michigan, ou ainda um ensaio de interpretação de sociologia política de matriz francesa. Essas “assinaturas intelectuais” carregam não apenas um estilo linguístico, mas compromissos teóricos e metodológicos específicos.
Quando a IA edita essas diferenças em nome da clareza e objetividade do texto, podemos perder algo importante. Assim, periódicos devem, a partir daqui, estar preocupados com a uniformidade estilística das submissões.
(Mas, reconheçamos um ponto: a revisora da Revista de Sociologia e Política me reportou como os textos melhoraram significativamente no último ano em termos de fluência, coerência, lógica e estrutura. Quem não edita periódicos científicos não saberá reconhecer o valor incomensurável disso...).
O segundo risco é mais grave e também mais conhecido: a fabricação de referências (“alucinações”). Há muitos casos de artigos citando trabalhos inexistentes “sugeridos” por IA. Submissões a periódicos devem ser rejeitadas após verificação aleatória revelarem citações fabricadas.
Há também um problema científico mais sutil. A Ciência Política não é apenas sobre “o que” sabemos, mas “como” chegamos a saber. Quando apenas o algoritmo identifica padrões em grandes volumes de texto, a lógica da descoberta muda. Uma pesquisadora leitora de teoria política clássica vê coisas diferentes de uma IA treinada com um corpus contemporâneo de textos.
O caso dos conceitos em Ciência Política
Nossa disciplina tem particularidades que tornam o uso de IA especialmente problemático.
Diferentemente das ciências naturais, trabalhamos com conceitos contestados, seja do ponto de vista ideológico, seja do ponto de vista científico: ‘democracia’, ‘justiça’, ‘poder’, ‘legitimidade’ etc. Não há “respostas corretas” que uma IA possa computar sobre essas coisas.
Mais importante: a Ciência Política é, afinal de contas, inerentemente interpretativa, mesmo em suas vertentes mais quantitativas. Quando analisamos uma eleição, não apenas contamos votos. Interpretamos seu significado dentro de contextos históricos, políticos e institucionais. Esse ato interpretativo é profundamente humano.
Um exemplo fictício pode ilustrar o problema. Um artigo sobre mudanças climáticas e conflitos políticos entre países do Sul Global pode usar IA para codificar rapidamente milhares de documentos diplomáticos. A codificação pode ser tecnicamente correta, mas perderá nuances cruciais sobre como diplomatas usam eufemismos e linguagem conotativa. O resultado é uma análise válida na superfície, mas falha na profundidade.
Space age atomic art.
O que os principais periódicos estão fazendo
Há um padrão emergente nas políticas que conseguimos documentar. O AJPS, APSR, British Journal of Political Science e World Politics convergem em alguns princípios:
· Transparência obrigatória: todo uso de IA deve ser declarado;
· Responsabilidade autoral: IA não pode ser coautora;
· Verificação essencial: autores(as) são responsáveis por validar qualquer conteúdo gerado por IA;
· Limites claros na escrita: IA não deve escrever elementos substanciais como a revisão de literatura ou a argumentação principal.
O World Politics é o mais explícito em desencorajar uso na escrita, enquanto outros periódicos permitem desde que haja declaração explícita. Mas todos concordam que IA pode auxiliar em tarefas como tradução, formatação e cálculos. Isso reflete um consenso crescente: IA é aceitável para processamento de dados e melhoria redacional, mas problemática para análise substantiva e interpretação teórica.
Onde traçar a linha do uso legítimo e aceitável?
Após três décadas como editor de periódico, proponho um princípio um tanto simples: o uso de ferramentas de Inteligência Artificial é aceitável quando amplia capacidades humanas. É inaceitável quando substitui pensamento reflexivo.
Isso significa que usar IA para:
· Identificar literatura relevante = aceitável;
· Escrever a revisão crítica dessa literatura = inaceitável;
· Transcrever e organizar entrevistas = aceitável;
· Interpretar o significado dessas entrevistas = inaceitável;
· Melhorar clareza da redação = aceitável;
· Gerar os argumentos centrais = inaceitável;
A linha pode parecer cinza em casos concretos, mas o princípio é claro: se você não pode defender cada afirmação do artigo em uma apresentação oral sem consultar a IA, então ela (e você) foi além do aceitável.
O futuro científico que estamos construindo
Minha maior preocupação não é que a IA produza ciência ruim, é que ela normalize ciência suficientemente boa, mas superficialmente boa. Em um sistema pressionado por métricas de produção, a IA pode acelerar uma corrida para mais artigos, publicados mais rapidamente, mas com menor profundidade.
A Ciência Política não precisa de mais papers. Precisa de melhores ideias, interpretações mais perspicazes, argumentos mais rigorosos. A IA pode ajudar a comunicar essas ideias, mas não pode gerá-las. Até o momento, pelo menos. Uma produção maior, mas menos profunda, pode gerar rapidamente uma “literatura descartável” que envelhece em meses e perde valor cumulativo.
Como editores e editoras, nossa responsabilidade é promover uma cultura onde a IA seja ferramenta, não coautora. Onde a clareza (desejável) não venha às custas da originalidade (desejável também).
Há aqui, talvez, dois caminhos pela frente: podemos encarar o trabalho das IAs como uma substituição do pesquisador, ou como uma adição, como um auxiliar mais rápido e que está sempre à mão. Escolho, de maneira otimista, acreditar nessa segunda alternativa.
Referências
Políticas de periódicos documentadas:
American Journal of Political Science - AI Policy
American Political Science Review - Author Guidelines
British Journal of Political Science - Author Guidelines
World Politics - For Authors & Reviewers
Este artigo reflete 30 anos de experiência como editor em Ciência Política e conversas com colegas editores dos principais periódicos da área, estudantes de doutorado e de pós-doutorado. As opiniões são pessoais e não representam a posição oficial da Revista de Sociologia e Política.
#AIandPoliticalScience #InteligenciaArtificial #CienciaPolitica #AcademicPublishing #IAnaPesquisa #ResearchIntegrity #EthicsInAI #HumanVsMachine #SciComm #FutureOfScience




