Mais textos que tabelas, mais filosofia que política
a Ciência Política na Unicamp do meu tempo (1 de 2)
Memoriais acadêmicos são um gênero literário ambíguo. Exigem que o autor reconstrua sua trajetória intelectual enquanto a analisa criticamente, como se fosse, ao mesmo tempo, o sujeito e o objeto da pesquisa. O trecho a seguir é parte do memorial que apresentei à banca de avaliação do concurso para Professor Titular de Ciência Política da UFPR. Resolvi publicá-lo aqui porque, mais do que um documento de carreira, ele é uma confissão e uma análise do ambiente intelectual que presidiu a transformação da Ciência Política brasileira nos últimos 50 anos.
Marco Giannotti, Contraluz 2009, https://marcogiannotti.blogspot.com/
O currículo como liberdade e como armadilha
Realizei todos os meus estudos superiores na Universidade Estadual de Campinas: a graduação, o mestrado e o doutorado. Entrei na Unicamp em 1983, ainda na ditadura militar, embora já na sua fase de desagregação. Os efeitos mais visíveis do regime ditatorial para um estudante de dezessete anos eram Educação Física e Estudos de Problemas Brasileiros como disciplinas obrigatórias.
A Unicamp nos anos oitenta era um universo social à parte, uma instituição de elite, desde seus mecanismos de seleção (o difícil vestibular da Fuvest) até o regime de aulas: cursos em período integral (o que tornava impossível trabalhar ao mesmo tempo), sem aulas à noite, um currículo extremamente flexível, com poucas disciplinas obrigatórias a partir do terceiro semestre. Isso nos dava, desde cedo, grande liberdade para formar uma trajetória intelectual muito pouco disciplinar, mas incentivava também certo diletantismo (cursei Russo, Grego antigo, Latim I, Teoria da Literatura, Lógica e Filosofia da Ciência numa turma na Engenharia Civil, Tópicos Especiais em Filosofia do Cinema e Formação do Estado Moderno no mesmo ano). Havia disciplinas organizadas, com ementa, programa de leituras, aulas expositivas, mas havia também disciplinas em que o assunto do curso era votado pelos estudantes no primeiro dia de aula e que respondiam a interesses diretamente políticos do Brasil naquela conjuntura: sindicalismo, feminismo etc.
O Trivium antes do Quadrivium
O curso de graduação em Ciências Sociais era então muito mais dedicado à formação de “intelectuais” do que de “profissionais”. O projeto mesmo da Universidade de Campinas era ser uma instituição de pesquisa e não de ensino para um ofício ordinário, conforme a explicação que nos davam, e escolher a linha de Ciência Política na graduação era escolher um cursus honorum acadêmico bastante previsível (graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, professor assistente, adjunto, associado e titular). Só que, primeiro paradoxo dessa história, esse percurso legítimo e esperável não exigia nem impunha conhecer o essencial para a carreira de cientista político: sistemas eleitorais e partidários, desenho constitucional, processo legislativo, modelos de análise de políticas públicas, política comparada, estatística descritiva e inferencial, análise de conteúdo etc. Vista a coisa toda por um aluno de graduação, a ideia força era que, para explicar a política, seria preferível ter um conhecimento bem menos técnico e bem mais erudito. Por isso, o “fato político” (Debrun) exigia saber antes de tudo literatura, cinema, psicanálise, economia, filosofia, epistemologia, arte, poética e, claro, o comentário erudito dos textos clássicos dos clássicos do marxismo, e não regressão linear, elite interviewing, análise de dados eleitorais e construção de surveys. Em termos medievais, aprender mais o Trivium (as artes da linguagem) do que o Quadrivium (as artes matemáticas).
A política dentro da Ciência Política
O segundo paradoxo dessa história decorria do fato de que esse campo intelectual-universitário só poderia se comportar assim, incentivando a curiosidade enciclopédica, graças à imensa autonomia em relação aos problemas concretos, em especial aos problemas políticos da conjuntura nacional, que tinham dificuldade para se exprimirem diretamente no currículo do curso de Ciências Sociais. Ao mesmo tempo, o Departamento de Ciência Política na Unicamp era cindido por uma divisão imediatamente política: de um lado, os adeptos da gestão social e, de outro, os adeptos da revolução social. Essa polarização estruturava o campo dos estudos políticos em Campinas e reproduzia, teórica e politicamente, a própria disputa sobre a natureza e o sentido da “transição democrática” no Brasil nos anos finais da ditadura.
A vertente da gestão – análise de políticas públicas, avaliação de programas sociais, descentralização administrativa do Estado etc. – representava uma Ciência Política orientada para a intervenção técnica, para o diálogo construtivo com governos estaduais e municipais, para a produção de diagnósticos e recomendações de política via assessorias e estudos técnicos. Essa vertente, acadêmica-política, exprimia, em meados dos anos oitenta, a agenda pública do País, reconfigurada pelas demandas concretas durante a redemocratização: como municipalizar e democratizar a gestão pública, como desenhar políticas redistributivas, como construir um Estado de bem-estar e como reformar as instituições políticas autoritárias.
A vertente da revolução – i.e., a Teoria Crítica, a sociologia política dos sindicatos e dos movimentos sociais e as múltiplas confissões do marxismo teórico –, recusava a subordinação da pesquisa à lógica das encomendas estatais e defendia uma “Ciência” (entre aspas) Política como crítica das formas de dominação de classe, análise das contradições do capitalismo dependente, estudo das transformações sociais e das possibilidades de ruptura social radical. Para essa corrente, política-acadêmica, fazer “Ciência” Política era fazer teoria social crítica: crítica das instituições e das formalidades da democracia burguesa (Parlamento, partidos, eleições) e análise das determinações econômicas estruturais, das lutas políticas de classe, das formas de resistência popular à ditadura.
Essa polarização não era apenas teórica ou temática, era também moral e política. A análise das “políticas públicas” era vista por uns como empirismo administrativo, capitulação tecnocrática e demissão do projeto transformador de sociedade. A crítica marxista era vista pelos outros como um verbalismo estéril, incapaz de produzir conhecimento científico ou de dialogar com os atores políticos concretos no Brasil nos anos oitenta. O que estava em jogo no Departamento de Política da Unicamp, portanto, era a própria identidade disciplinar da Ciência Política brasileira: ela ou seria uma disciplina de Estado (fornecedora de dados brutos, quadros técnicos e conselhos práticos para os novos governos da redemocratização), ou uma disciplina “crítica” (produtora de conhecimento sobre a dominação, conhecimento esse instrumental para a emancipação).
Os mortos que governavam os vivos
Entre inícios dos anos 1980 e meados dos anos 1990, a Ciência Política por aqui vivia um terceiro paradoxo, temporal e epistemológico. Enquanto na França os grandes maîtres à penser desapareciam física ou simbolicamente – Barthes (1980), Lacan (1981), Soboul (1982), Aron e Sartre (1983), Foucault (1984), Braudel (1985), Althusser (1990), Deleuze (1995), Duby (1996), Castoriadis (1997) –, as Humanidades, das quais ainda éramos parte, experimentavam o apogeu desses mesmos autores. Essas eram as grandes referências intelectuais estruturantes da Sociologia, da História e da Política na academia brasileira.
O estruturalismo, o pós-estruturalismo e o marxismo, precisamente no momento em que já se haviam esgotado na França, e que a French Theory não era mais tão sedutora no Estados Unidos, preenchiam uma função estratégica no campo intelectual brasileiro: permitiam um discurso político sofisticado e ofereciam, ao mesmo tempo, instrumentos de crítica radical tanto ao regime autoritário que caía quanto ao regime democrático-burguês que subia, sem exigir, em contrapartida, obediência ideológica ou filiação partidária aos partidos comunistas, como a devida pelos intelectuais universitários nos países da Europa ocidental.
Na Ciência Política, essa hegemonia filosófica produziu um descompasso disciplinar. Predominavam a análise estrutural do mundo social (Althusser), a análise dos dispositivos de poder (Foucault), a desconstrução das ideologias (Barthes), a psicanálise aplicada ao político (Lacan), as análises econômicas da revolução política (Soboul), a primazia da hegemonia da cultura (Gramsci) e toda sorte de operações hermenêuticas literárias tão ao gosto do marxismo ocidental (como Anderson criticou). Por sua vez, a mera análise de dados, a pesquisa de survey, a inferência estatística e os métodos comparativos sistemáticos permaneciam bastante marginais ou completamente ausentes dos nossos currículos. Havia então mais Filosofia que Política, mais textos que tabelas, no sentido de que o objeto “política” era mediado por aparatos conceituais apurados, mas completamente desconectados das operações empíricas mais usuais da disciplina (conceituação, mensuração, explicação etc.). O resultado era uma Ciência Política oscilando entre ensaísmo erudito, crítica ideológica e teoria social abstrata. Dramatizo um pouco, mas não traio totalmente a verdade.
Este era o ambiente intelectual que encontrei ao ingressar na Unicamp em 1983 e no qual fiz o meu mestrado: hegemonia teórica francesa, predomínio da meditação filosófica e engajamento político mediado por grande requinte conceitual. Foi nesse contexto, marcado pela leitura aplicada de textos canônicos e ausência completa de treinamento metodológico, que aprendi Ciência Política, herdando suas virtudes (conhecimento teórico, ambição interpretativa, consciência histórica dos processos sociais) e seus limites (déficit empírico, escolástica textual, distância da pesquisa internacional na área).
continua... (e piora)
Marco Giannotti nasceu em São Paulo em 1966. Pintor, professor da Escola de Comunicação e Artes da USP. Organizou o livro “Reflexões sobre a cor” editado pela Martins Fontes em 2021.
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Mesmo com quase 40 anos entre o início da sua formação em Ciência Política e o início da minha, em Ciências Sociais, em 2016, vejo muitas semelhanças, principalmente em relação ao déficit metodológico notável nos cursos de graduação (e mesmo na pós). Impressionante (rs)!