Nem só de Jesus vive o Parlamento
O avanço profissional dos deputados evangélicos
Deputado Pastor Sargento Isidório (Avante) em 2018, à época deputado estadual (BA)
Do templo ao plenário: como os evangélicos tomaram o Legislativo
A transformação religiosa do Brasil nas últimas décadas é um dos fenômenos sociais mais significativos da história recente. Em 1980, apenas 6,5% da população brasileira se declarava evangélica. Em 2023, esse número saltou para 27%. Esse crescimento não ficou restrito aos templos: ele se traduziu também em poder político, especialmente no Congresso Nacional.
Desde sua criação em 2003, com 57 membros, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) cresceu de forma importante, passando em 2023 a contar com mais de 220 deputados e senadores. No entanto, pouco se sabe sobre o perfil desses parlamentares. Eles formariam um grupo amador, voltado apenas para pautas religiosas? Ou teriam desenvolvido estratégias e rotinas próprias de profissionalização política, como outras bancadas mais tradicionais?
Foi para responder a essa pergunta que a pesquisadora Maiara Echer Rebelatto, da Universidade Federal do Paraná, realizou uma investigação abrangente sobre os padrões de atuação da FPE. Sua dissertação de mestrado, defendida ontem na UFPR, analisa os deputados evangélicos ao longo de duas décadas (de 2003 a 2023) para revelar que os evangélicos não apenas cresceram numericamente no Congresso, como se tornaram politicamente mais experientes, especializados e institucionalizados. Numa palavra, “profissionais”.
Magno Malta, deputado evangélico. Foto: Carta Capital (2018).
Quando a fé vira ofício: o que define um político “profissional”
Em Ciência Política, falar de “profissionalização” não se refere apenas ao fato de um parlamentar receber salário. O conceito remonta a Max Weber e à clássica distinção entre viver “da” política e viver “para” a política. Mas, no contexto legislativo contemporâneo, essa ideia ganhou contornos mais empíricos.
Um político profissional é aquele que constrói uma trajetória contínua, acumula experiência em cargos públicos, dedica-se intensamente ao trabalho parlamentar e adquire capital político dentro das instituições. Em outras palavras, trata-se de alguém que conhece os bastidores, domina os procedimentos e se mantém ativo no Poder Legislativo.
No estudo de Maiara Rebelatto, a profissionalização foi medida por meio de um índice desenvolvido pela pesquisadora também da UFPR, Gabryela Gabriel: o Índice de Profissionalização Parlamentar (IPP).
Deputados evangélicos em culto na Câmara Federal. Foto: David Ribeiro/Agência Câmara.
Ele está baseado em duas dimensões principais:
1. Especialização legislativa: avalia se o/a deputado/a ocupou cargos de destaque dentro da Câmara, como na Mesa Diretora, no Colégio de Líderes e na presidência ou relatoria de comissões. Essas posições indicam conhecimento das regras internas e participação qualificada no processo legislativo.
2. Carreira parlamentar: considera o histórico político do/a deputado/a — como a experiência em mandatos subnacionais (vereador ou deputado estadual), o tempo de atuação no Congresso e a fidelidade à carreira legislativa (tentativa de reeleição ou migração para o Senado, em vez de abandonar o Legislativo).
Com esses critérios, o IPP permite avaliar não apenas se o/a deputado/a é ativo/a, mas também se sua atuação segue um padrão de longo prazo, típico de quem se dedica à política como profissão.
O pastor Silas Malafaia e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em manifestação no Rio, em 2024 (Foto: Reprodução canal Silas Malafaia no YouTube). Gazeta do Povo.
Como a pesquisa foi feita: estatística para não iniciados
Para produzir esse retrato, Maiara analisou um universo de 3.764 parlamentares, sendo 781 vinculados à FPE e 2.983 não vinculados, em seis legislaturas consecutivas (de 2003 a 2023). Os dados foram coletados automaticamente por meio das APIs da Câmara dos Deputados e do Tribunal Superior Eleitoral. Isso garantiu precisão e padronização na coleta de informações sobre biografias políticas, cargos exercidos e desempenho eleitoral.
Cada deputado recebeu uma pontuação de 0 a 1 para cada variável analisada, com base na técnica de normalização chamada min-max (uma forma de colocar tudo na mesma escala, como se todas as notas fossem “padronizadas” entre o pior e o melhor desempenho). A pontuação final do IPP levou em conta diferentes pesos atribuídos às variáveis, conforme a relevância institucional de cada cargo ou atividade. Por exemplo, presidir a Câmara contou mais que relatar um projeto.
Para verificar se havia diferenças reais entre os deputados evangélicos e os demais, Maiara Rebelatto aplicou o teste estatístico de Mann-Whitney, uma técnica que compara dois grupos e diz se a diferença entre eles é significativa ou se pode ser atribuída ao acaso. É um teste robusto, amplamente usado quando os dados não seguem uma distribuição perfeitamente “normal” (como uma curva de sino simétrica).
O que essa combinação de estatísticas revelou foi uma mudança estrutural importante ao longo do tempo.
Fiéis participam de culto evangélico na Praia de Botafogo, Zona Sul do Rio. Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo, 2020.
De novatos a veteranos: a curva de aprendizado da FPE
Nas três primeiras legislaturas analisadas (2003-2007; 2007-2011; 2011-2015), os deputados da FPE tinham índices mais baixos de profissionalização em relação aos demais. Ocupavam menos cargos de destaque, tinham menos experiência política prévia e suas trajetórias eram, em média, mais recentes e instáveis.
Mas isso mudou. A partir da 55ª legislatura (2015-2019), integrantes da Frente Parlamentar Evangélica começaram a apresentar padrões mais altos de profissionalização (com destaque para a dimensão de carreira parlamentar). Em muitos casos, os evangélicos passaram a se igualar (e até a superar) os demais deputados, principalmente na taxa de reeleição e no tempo de permanência no Congresso.
Além disso, o grupo se tornou mais homogêneo internamente. Ou seja, enquanto os demais parlamentares exibem uma grande variação, indo de figuras altamente experientes a novatos sem trajetória, os membros da FPE têm perfis mais uniformes. Isso sugere a existência de mecanismos comuns de recrutamento e de preparação política dentro do campo evangélico. Esse é um aspecto a ser mais bem pesquisado.
Lula candidato entre evangélicos em culto. Agência Pública. 31 de outubro de 2022.
Fé, estratégia e contexto: como a profissionalização se deu
Essa profissionalização progressiva tem raízes políticas e organizacionais. Três fatores ajudam a explicá-la, segundo Maiara.
1. A institucionalização da FPE: se no início a “bancada evangélica” era informal e difusa, a criação oficial da FPE, com regimento, liderança e reuniões periódicas, contribuiu para a formação de uma identidade coletiva mais coesa e estratégica.
2. A politização das igrejas: Muitas denominações, especialmente as pentecostais e neopentecostais, passaram a investir deliberadamente em quadros políticos, apoiando candidatos com experiência prévia e perfil técnico mais ajustado às exigências do jogo institucional.
3. O contexto político nacional: A ascensão da nova direita e a intensificação dos debates morais e culturais no Congresso deram centralidade a pautas religiosas e conservadoras. Isso favoreceu o crescimento da FPE e a sua transformação em força relevante no núcleo decisório da política nacional.
André Mendonça, o nome “terrivelmente evangélico” para o STF nomeado por Bolsonaro, em 2021 (Foto: Daniel Estevão/ MJ).
Nem só Bíblia e clientelismo: uma bancada com método
Um dos méritos centrais da dissertação de mestrado de Maiara Rebelatto é desconstruir o estereótipo de que os parlamentares evangélicos seriam um grupo clientelista, improvisado ou “meramente religioso”. A pesquisa mostra que a FPE opera cada vez mais como uma coalizão parlamentar estruturada, com lógica e rotinas comparáveis às das bancadas ruralista ou empresarial.
Isso não significa que sabem cada vez mais como navegar nas regras do jogo político. Seu conservadorismo, portanto, não é apenas retórico: está sendo traduzido em projetos de lei, cargos estratégicos e influência sobre a agenda nacional.
Bispo Hilton Barra preside culto no Palácio do Planalto com Bolsonaro, Davi Alcolumbre e Silas Malafaia em 2019.
Entre a cruz e a urna: o futuro da democracia diante da fé organizada
O caso da profissionalização política da Frente Parlamentar Evangélica revela um processo típico das modernas democracias: a profissionalização de novos grupos sociais que, a partir de sua força cultural e eleitoral, conquistam representação e espaço institucional.
Esse movimento traz implicações ambivalentes. De um lado, a profissionalização favorece o funcionamento do Legislativo, aprimora a articulação política e aumenta a capacidade de formulação técnica. De outro, tensiona princípios como o pluralismo e a laicidade do Estado, especialmente quando os valores religiosos se tornam base normativa para legislar sobre temas sensíveis como educação, sexualidade ou direitos civis.
Deputado Sóstenes Cavalcanti (PL - RJ).Foto: Daniel Medeiros/PlatôBr
O desafio não é conter a presença evangélica na política, mas compreender que sua atuação já opera nos mesmos moldes institucionais dos demais grupos organizados. O crescimento da FPE ensina que a religião pode ser, sim, um vetor de poder. E que sua força depende menos da fé e mais da capacidade de organização, disciplina e profissionalismo político.









