O banquete de Macbeth: conversando com um centro que não existe mais
Existe uma fantasia reconfortante na política brasileira: a ideia de que, em meio aos extremismos, sempre haverá um centro moderado, equilibrado, capaz de construir pontes entre esquerda e direita. É uma cadeira vazia no banquete. Pois bem, temos uma má notícia: esse centro desapareceu. Não está enfraquecido, não está em crise. Simplesmente não existe mais.
Théodore Chassériau, Macbeth Seeing the Ghost of Banquo (1854)
Essa não é uma opinião impressionista ou resultado de conversas com colegas pessimistas. É o resultado de uma pesquisa que meus colegas Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro, Bruno Fernando da Silva e eu acabamos de publicar na revista Opinião Pública, da Unicamp.
Bolognesi, B., Ribeiro, E., Codato, A., & Silva, B. F. da. (2025). O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro: a classificação mais atualizada dos experts. Opinião Pública, 31, 1-28, e31120. https://doi.org/10.1590/1807-0191202531120
Quase 500 cientistas políticos brasileiros e brasilianistas classificaram ideologicamente todos os 32 partidos políticos brasileiros registrados no TSE em 2022, comparando com dados de 2018. O veredito é: a posição de centro ideológico, que abrigava partidos como Cidadania, PV e Rede, está completamente vazia.
Como medimos isso (e por que é confiável)
Antes que alguém proteste dizendo que “ideologia é subjetiva” ou que “cada um enxerga os partidos de um jeito”, deixe-me explicar o método. Aplicamos questionários online para 477 cientistas políticos brasileiros e brasilianistas. São pessoas que estudam partidos políticos profissionalmente. Pedimos que posicionassem cada partido numa escala de 0 (extrema esquerda) a 10 (extrema direita).
Por que especialistas? Porque, teoricamente, eles têm conhecimento aprofundado, acompanham sistematicamente o comportamento dos partidos e, diferentemente de filiados ou eleitores, não têm, em princípio, compromisso emocional ou estratégico com as legendas. Claro, nenhum método é perfeito, mas este possui validade externa comprovada quando comparado com outras técnicas de classificação ideológica.
Sobre métodos de classificação, leia este artigo legal pra chuchu:
Bolognesi, B. (2024). Como medir ideologia partidária?. Revista de Sociologia e Política, 32, e016. https://doi.org/10.1590/1678-98732432e016
O mais interessante é que não houve divergências significativas entre especialistas de diferentes áreas da Ciência Política. Quem estuda instituições políticas classificou os partidos de forma muito semelhante a quem estuda comportamento eleitoral ou políticas públicas. Isso sugere que estamos diante de um fenômeno objetivo, não de um viés de percepção.
O que aconteceu entre 2018 e 2022
Os números são claros. Em 2018, ainda tínhamos partidos genuinamente centristas. O PV, por exemplo, tinha média 5,29, praticamente no meio exato da escala. Em 2022, esse mesmo partido está em 4,12, firmemente à centro-esquerda. O Cidadania migrou de 4,93 para 6,17, saindo do centro para a centro-direita. A Rede saltou de 4,77 para 3,69.
Mais importante que os números individuais é o padrão agregado: nenhum partido ocupa mais a faixa entre 4,5 e 5,5 da escala, que definimos como o centro ideológico. O espaço intermediário simplesmente desapareceu. Os partidos se espremeram nas extremidades do espectro político.
Paralelamente, a polarização aumentou. Nosso indicador (baseado em Dalton) subiu de 0,419 em 2018 para 0,503 em 2022. Para ter uma ideia, Estados Unidos e Reino Unido, países notoriamente polarizados, têm índices de 0,243 e 0,282. O México, uma democracia presidencialista mais próxima da nossa, tem 0,210. Estamos mais polarizados que sociedades bipartidárias clássicas.
Dalton, R. J. (2021). Modeling ideological polarization in democratic party systems. Electoral Studies, 72, 102346. https://doi.org/10.1016/j.electstud.2021.102346
Obs: Usamos uma versão simplificada do indicador de Dalton para medir a polarização, pois não foi incorporado o peso relativo de cada partido em termos de representação parlamentar ou desempenho eleitoral, apenas a distância ideológica entre eles.
Por que isso aconteceu? Regras eleitorais e lideranças políticas
Identificamos dois mecanismos causais principais. O primeiro são as federações partidárias, criadas em resposta ao fim das coligações proporcionais (2022) e à cláusula de desempenho (2018). Partidos menores se uniram formalmente a legendas maiores e, ao fazer isso, foram ideologicamente capturados por elas.
O PT funcionou como uma verdadeira âncora gravitacional: puxou o PCdoB da posição 4,60 para 1,78 (de centro para esquerda radical), arrastou o PV do centro para a centro-esquerda. O PSOL, ao se federar com a Rede, também exerceu força gravitacional, deslocando seu parceiro para posições mais à esquerda.
Do lado oposto, o PSDB capturou o Cidadania, empurrando-o para a centro-direita. Mas aqui há uma assimetria reveladora: enquanto o PT conseguiu tornar seus parceiros mais programáticos (o PV passou a ser visto como mais orientado por políticas públicas), o PSDB não teve o mesmo efeito sobre o Cidadania, que manteve seu perfil fisiológico.
O segundo mecanismo é ainda mais importante: o impacto de lideranças carismáticas. O caso mais notável é o PL, que saltou de 7,78 em 2018 para 8,80 em 2022, posicionando-se na extrema direita. A explicação? Bolsonaro. A filiação do ex-presidente ao partido foi suficiente para alterar radicalmente sua percepção ideológica.
A assimetria que ninguém quer ver
Há um achado que raramente aparece no debate público, mas deveria interessar: a brutal assimetria entre esquerda e direita quanto ao programatismo. Perguntamos aos especialistas se cada partido era orientado principalmente por políticas públicas (policy-seeking), por cargos (office-seeking) ou por votos (vote-seeking). Caso interesse, leia:
Strøm, K. (1990). A behavioral theory of competitive political parties. American Journal of Political Science, 34(2), 565-598. https://doi.org/10.2307/2111461
O resultado não chega a ser desconcertante: praticamente todos os partidos identificados pelos nossos pesquisados como programáticos estão à esquerda. PT, PSOL, PCdoB, PSB, todos apresentam predomínio de orientação por políticas públicas. À direita, apenas o Novo escapa do rótulo de fisiológico. O resto é um mar de legendas voltadas para cargos e votos, sem densidade programática.
Esse é um padrão empiricamente robusto que se repete nas duas ondas da pesquisa (2018 e 2022). A direita brasileira simplesmente não consegue produzir partidos programáticos de massa. Quando surgem propostas mais definidas ideologicamente, como no caso do Novo, o partido permanece eleitoralmente marginal. E, no caso, se tornou uma filial ideológica do PL.
Por que isso importa?
“E daí se não há centro? Democracia é competição entre visões diferentes, não necessariamente entre três blocos simétricos”. Justo. Mas há consequências práticas.
Primeiro, a ausência de centro, vejam só, dificulta imensamente a formação de coalizões governamentais estáveis. Num sistema presidencialista multipartidário como o nosso, o governo precisa costurar alianças. Quando não há partidos intermediários, as pontes ficam mais frágeis e caras (politicamente falando).
Segundo, a polarização sem mediação institucional aumenta a temperatura do debate público. Não estou fazendo análise normativa sobre ser isso bom ou ruim, apenas constatando que eleva os custos de transação política e reduz as possibilidades de acordo em temas em princípio consensuais.
Terceiro, e talvez mais importante: a desertificação do centro reflete transformações institucionais aparentemente técnicas, mas com efeitos políticos profundos. O fim das coligações e a cláusula de desempenho não apenas reduziram a fragmentação nominal (temos menos partidos), mas alteraram qualitativamente o sistema partidário. Incentivos institucionais discretos produzem consequências ideológicas enormes. Aqui vale a cartilha dos institucionalistas.
O que vem pela frente?
Esta é a segunda rodada de nossa pesquisa. Pretendemos continuar classificando os partidos a cada quatro anos, construindo uma série histórica robusta. Só assim poderemos testar hipóteses causais mais sofisticadas sobre o que move os partidos ideologicamente. Em 2026 pretendemos fazer uma nova onda com filiados da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP).
Por ora, fica o registro: o centro ideológico desapareceu do sistema partidário brasileiro. Não foi assassinado por extremistas, não morreu de causas naturais. Foi esvaziado por mudanças institucionais e pela força gravitacional de partidos programáticos grandes (à esquerda) e lideranças carismáticas (à direita).
Alguma literatice para terminar
Como Macbeth diante do espectro de Banquo, a classe política brasileira insiste em ver o que não está lá, em dialogar com uma cadeira vazia, em negociar com uma posição que desapareceu do sistema partidário. Pode-se fazer discursos eloquentes sobre moderação, pode-se evocar a memória de tempos em que havia partidos de centro ou de centro-direita moderada (tipo PSDB), pode-se até fingir que o fantasma responde. Mas quando chega a hora de montar coligações, distribuir ministérios e votar projetos no Congresso, a realidade se impõe: não há ninguém sentado naquela cadeira.
Macbeth sees the ghost of Banquo during Act 3, Scene 4 of Macbeth by William Shakespeare. Ross Keegan @rosskeegan7
Nota: Em Macbeth, de Shakespeare, o protagonista assassina seu amigo Banquo para proteger o trono usurpado. Durante um banquete, o fantasma de Banquo aparece e se senta à mesa, visível apenas para Macbeth, que entra em pânico diante dos convidados. A cena tornou-se metáfora clássica da tentativa de dialogar com algo que não existe mais, uma presença imaginada que ocupa um lugar vazio, perturbando quem insiste em vê-la enquanto os demais observam desconcertados.
Se você chegou até aqui, parabéns, mas deixe-me dizer que o artigo ainda não está online na homepage da revista Opinião Pública. Mas vc pode baixá-lo do meu ResearchGate https://bit.ly/4pCpqmT



