O enigma da causalidade metonímica: uma nota sobre efeitos sem causa
(parte 1 de 6)
Ou: quando o mundo social funciona sem sujeito
Coleção ciência da ciência
Toda pesquisa em ciências sociais enfrenta, em algum momento, a questão da causalidade: o que explica o fenômeno que observamos? Por que deputados oriundos de famílias políticas ascendem mais rapidamente na carreira? Por que reformas anticorrupção fracassam repetidamente? Por que certos países se democratizam e outros não? Por que alguns que se democratizam sofrem uma regressão autoritária?
A resposta convencional segue um modelo intuitivo: “A causa B”. Testamos se origem familiar causa sucesso político. Se aumento de renda per capita causa democracia. Rodamos regressões, calculamos coeficientes, verificamos significância estatística. É o modelo da causalidade linear, dominante na ciência política contemporânea (simplificando).
Fayga Ostrower. Díptico em água-forte, água-tinta e ponta seca em cores sobre papel (1995). Instituto Fayga Ostrower
Há várias formas de causalidade para explicar o mundo político e social e elas produzem explicações distintas dos mesmos fenômenos.
Modelos lineares ou probabilísticos explicam padrões médios a partir de variáveis identificáveis: por exemplo, maior renda, escolaridade ou status aumentam a probabilidade de sucesso eleitoral de candidatos com maior grau de elitismo social.
A causalidade intencional, de inspiração weberiana, desloca o foco para os motivos dos atores: elites se reproduzem porque indivíduos ambiciosos calculam custos e benefícios, decidem investir em suas carreiras políticas e mobilizam recursos conscientemente. Já a causalidade funcional explicaria a persistência das elites pelo papel que elas desempenham na estabilidade do sistema político e não por decisões individuais ou causas iniciais identificáveis. A ideia é que elites se mantêm porque contribuem para a coordenação política, a previsibilidade das decisões e a reprodução das regras sociais.
Abordagens configurais (como QCA) mostram que a reprodução das elites pode resultar de combinações específicas, tais como, por exemplo, partido forte e redes familiares e baixa competição no distrito, sem que um único fator seja ao mesmo tempo necessário e suficiente. A causalidade processual (process tracing) reconstrói sequências históricas, como reformas eleitorais que, passo a passo, acabam reforçando insiders em vez de ampliar a renovação parlamentar.
Já perspectivas contingentes destacam eventos críticos, isto é, acontecimentos relativamente raros, imprevisíveis e concentrados no tempo, como crises econômicas e golpes políticos, que reconfiguram temporariamente o recrutamento das elites, abrindo ou fechando oportunidades para grupos sociais distintos. Ora eles podem interromper mecanismos rotinizados de recrutamento, ora podem produzir o efeito oposto, reforçando elites estabelecidas que conseguem se adaptar mais rapidamente à nova conjuntura. Esses eventos não “causam” resultados de maneira mecânica, mas abrem ou fecham possibilidades que antes não existiam.
Uma ideia estranha
Nos anos 1960, Louis Althusser e Jacques-Alain Miller (pronuncia-se de forma chique “Milérrrr”) propuseram um modo de explicação do mundo social radicalmente diferente: a noção de causalidade metonímica (causalité métonymique).
O termo é obscuro, deriva da psicanálise lacaniana, mas captura uma intuição importante sobre como funciona o mundo social, intuição que a modelagem estatística convencional talvez não consiga apreender completamente. (Vou retomar este tema nas partes 3, 4 e 5 dessa sequência de postagens).
O conceito de causalidade metonímica apareceu inicialmente em Lire le Capital (1965), obra coletiva do grupo da Rue D’Ulm que buscava refundar o marxismo através de leitura sintomática d’O Capital nos seminários de 1963-1964. Althusser dedicou-lhe atenção especial numa seção posteriormente eliminada das edições seguintes (Gonsalves, 2016). Conforme Morfino (2014), Althusser identificava na causalidade metonímica, ao lado dos conceitos de sobredeterminação (emprestado da psicanálise) e causa imanente (Spinoza), um dos pilares para caracterizar como as estruturas sociais exercem seus efeitos sobre os agentes.
Dizer que a estrutura não age diretamente significa afirmar que não há um agente identificável responsável pelos efeitos que ela produz.
A causalidade metonímica opera precisamente nesse registro: a estrutura age por meio de efeitos parciais, deslocados e rotinizados, sem jamais se apresentar como causa visível ou decisão consciente. É nesse ponto que o conceito lacaniano de “sutura”, formulado por Jacques-Alain Miller, torna-se esclarecedor (até onde ‘conceito’, ‘Lacan’ e ‘esclarecedor’ cabem numa única frase).
A sutura designa o mecanismo pelo qual o sistema apaga o sujeito, o conflito e a contingência para funcionar como se fosse neutro e automático. A causalidade estrutural explica então como essa ausência produz efeitos reais: padrões recorrentes de exclusão política, reprodução institucional do poder, fracasso sistemático de reformas etc. A estrutura é eficaz porque está ausente, isto é, porque funciona escondendo aquilo que precisou excluir para operar (Miller, 1966).
Por exemplo, no recrutamento político, não há uma decisão explícita de excluir membros das classes trabalhadoras, mas critérios aparentemente neutros (trajetórias esperadas, redes informais, custos de entrada e controles partidários), operando de forma rotinizada, reproduzem elites estabelecidas sem agente identificável, suturando o conflito enquanto o produzem metonimicamente nos resultados, isto é, fazendo a exclusão aparecer apenas nos efeitos finais, e não como uma escolha no início ou uma regra declarada ao longo do processo.
Por que “metonímica”? Quando a estrutura só existe nos efeitos
Metonímia é uma figura de linguagem que opera uma substituição baseada em contiguidade/proximidade. Por exemplo, na frase acima, o grupo da “Rue D’Ulm” quer dizer, por substituição, o grupo de jovens filósofos da École normale supérieure (ela fica nessa tal rua em Paris). Quando dizemos “a Casa Branca decidiu”, não queremos dizer que o edifício tomou uma decisão. A estrutura física representa, metonimicamente, o Poder Executivo americano. Porém, não existe “Casa Branca” separada das pessoas, protocolos, hierarquias, conflitos e processos que a compõem. Ela existe apenas através dessas práticas.
A escolha do termo é deliberada. Na causalidade metonímica, a estrutura social não existe separada de seus efeitos. Não há “patrimonialismo brasileiro” flutuando acima das práticas concretas. Ele é essas práticas: nepotismo, clientelismo, apropriação privada do bem público etc. A estrutura não antecede seus efeitos como causa separada. Ela existe imanentemente neles.
Nesse ponto é importante notar que o patrimonialismo não é a soma empírica das práticas que o definem. É a combinatória (combinaison) que os articula. O patrimonialismo não é simplesmente nepotismo + clientelismo + apropriação. É o sistema de relações que faz com que essas práticas se articulem de determinada maneira, produzindo efeitos específicos.
Três consequências incômodas para a análise social
A novidade teórica aqui é tripla.
1. Primeiro, a causa não precede logicamente o efeito, é simultânea (“imanente”) a ele.
2. Segundo, a causa não é localizável num ponto específico, é relacional, distribuída pelo sistema.
3. Terceiro, a causa não é intencional, opera “às costas” dos agentes como efeito de estrutura, que a reproduzem sem conhecê-la.
Por isso Althusser chamou-a de “causa ausente”: algo que determina sem aparecer, que orienta práticas sem ser percebido por quem as executa.
A estrutura não é “ausente” porque está escondida (como se fosse invisível, mas real). Ela é ausente porque não tem existência fora dos efeitos. Não é que ela determine “sem aparecer”. Ela só existe aparecendo (nos efeitos), mas nunca como tal, sempre deslocada.
Montag (2018) notou que Miller concebia a metonímia como “ação de uma causa que não existe fora ou anteriormente aos seus efeitos, não estando presente em lugar algum exceto no efeito que ‘produz’”. Isso contrasta com a causa imanente spinoziana. Spinoza rejeitava a noção de vácuo ou vazio, preferindo falar de causa que permanece em seus efeitos. A formulação de Miller-Althusser radicaliza essa ideia: a estrutura é literalmente ausente como entidade separada.
A causa sem sujeito
Em termos mais simples, isso significa que a estrutura não é algo escondido por trás dos dados, mas o padrão recorrente que aparece nos resultados. Não observamos a estrutura diretamente.
Tomemos “o” capitalismo. “Ele” como entidade não existe em lugar algum. Não está na fábrica, na bolsa de valores nem no contrato de trabalho, mas nas práticas muito concretas de contratar, demitir, produzir, vender. Essas práticas só fazem sentido porque estão articuladas numa relação social específica: propriedade privada dos meios de produção + trabalho assalariado. Essa relação não existe em nenhum lugar específico. Ela só existe se realizando em milhões de transações, contratos, jornadas de trabalho, nunca como estrutura.
No processo de recrutamento de elites, observamos quem entra, quem fica de fora e como esses resultados se repetem ao longo do tempo, mesmo quando ninguém decide explicitamente produzi-los. A causalidade metonímica chama atenção para esses efeitos sistemáticos produzidos pela articulação de regras, incentivos e rotinas combinadas, e que não podem ser atribuídos a uma única variável ou a um agente identificável (Steimberg, 2016).
Como diria Lacan: não há o “grande Outro”, um sujeito por trás da cortina garantindo a ordem social. A estrutura funciona sozinha, de maneira autônoma e anônima, isto é, ausente, produzindo efeitos sem precisar de autor.
O mundo social funciona implacavelmente justamente porque ninguém está no comando.
(continua...)
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Ótimo texto. A noção moderna de causalidade (por exemplo de resultados potenciais) comporta todas as noções acima (com exceção de explicações funcionalistas, onde o efeito precede a causa). Então é uma noção bastante geral. No caso do estruturalismo, é preciso pensar que é um equilíbrio baseado nas expectativas dos agentes que são consistentes (algo como equilíbrio de Nash). E aí você tem a violação do SUTVA, mas que pode ser generalizado (ver os trabalhos de Manski a respeito). Acho que ainda é um tema em aberto quando você viola SUTVA e está falando de um equilíbrio estrutural, mas o caminho aberto pelo Manski parece que dá conta disso.