‘O novo não me choca mais’
Assim como no paradoxo de Leminski, a promessa de ruptura, encarnada pelos outsiders, é reciclada em discursos que já não surpeeendem
Roberta Picussa e Adriano Codato
Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 10 ago. 2025.
“Constelação”, de Alexander Calder
A ascensão dos outsiders foi um fenômeno marcante a partir das eleições brasileiras de 2018. Seis anos depois, a rejeição à política tradicional permanece forte, mas o que de fato atrai o eleitorado para os novatos? E será que lulistas e bolsonaristas enxergam o “novo” da mesma maneira?
Para responder a essas perguntas, o INCT ReDem realizou uma pesquisa qualitativa ouvindo eleitores das classes C, D e E no estado de São Paulo. O objetivo era entender não só as preferências, mas as especificidades do eleitorado.
Os resultados revelam que a demanda por renovação política é transversal. A desilusão com promessas não cumpridas e a indignação diante da corrupção são sentimentos compartilhados por lulistas e bolsonaristas. Mas as similaridades param aí. Quando se trata de definir o que significa ser outsider e qual é o “novo” desejado, as diferenças entre os dois grupos são nítidas.
Entre os eleitores de Lula, há uma busca por figuras novas, mas com trajetória de compromisso social. A experiência política é valorizada quando associada a causas e resultados concretos. O outsider idealizado por lulistas é alguém que emerge de movimentos sociais ou trabalho comunitário, sem cair no vazio das promessas fáceis. Eles rejeitam tanto o discurso político tradicional quanto o clichê vazio “contra o sistema”. O pragmatismo aparece na aceitação dos partidos grandes como veículos necessários para viabilizar a governabilidade, mesmo que não se sintam representados por eles.
Entre os eleitores de Bolsonaro, o outsider é visto como a principal via para renovar práticas políticas desgastadas, embora permaneça a dúvida sobre a real capacidade desses candidatos de transformar efetivamente o sistema político. O discurso antissistema ocupa um lugar central, e a inexperiência política, longe de ser um defeito, é reinterpretada como sinal de autenticidade e distanciamento dos vícios do establishment político. Há uma clara valorização de figuras combativas, especialmente aquelas que enfrentam diretamente o que percebem como as engrenagens do sistema, seja nas redes sociais ou em confrontos simbólicos com as instituições.
Mas não há ingenuidade entre os bolsonaristas: há um temor de que o outsider seja engolido pelo sistema ou que se revele um oportunista. Ainda assim, a tolerância a discursos simplificados e rótulos genéricos é maior do que entre lulistas, para os quais a coerência ideológica e a capacidade de articulação são critérios decisivos.
Nossa pesquisa expõe um paradoxo central da política brasileira: todos querem o novo, mas a definição de “novo” depende da lente ideológica. Enquanto lulistas tendem a valorizar outsiders com histórico de compromisso social e preparo técnico, bolsonaristas priorizam candidatos com forte discurso antissistema, sendo menos exigentes com experiência política prévia.
No fundo, a política brasileira parece encenar, a cada eleição, o mesmo paradoxo capturado por Leminski: “o novo não me choca mais”. A promessa de ruptura, encarnada pelos outsiders, segue sendo reciclada em discursos que, de tão repetidos, já não surpreendem. Mas isso não impede que eleitores lulistas ou bolsonaristas continuem a chocar o mesmo “ovo de sempre”, em busca de um novo que reafirme suas próprias indignações.
Roberta Picussa é cientista política e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) sediado na Universidade Federal do Paraná.
Adriano Codato é professor de Ciência Política na UFPR e coordenador do INCT ReDem.

