O Parlamento dos Novatos: como outsiders vêm redesenhando a política no Brasil e no Chile
Em meio à crise de confiança nas instituições, um novo tipo de parlamentar ganhou espaço na América Latina: o outsider.
Referência: Codato, A., Picussa, R., & Ribeiro, E. (2025). The election of outsider deputies in Chile and Brazil. In H. Telles & J. Silva (Eds.), Public opinion and turmoil in Latin American democracies (Cap. 11). Springer. https://link.springer.com/book/9783031831041
Foto: Gabriel Boric (à esquerda) e José Antonio Kast (Elvis Gonzalez/Reuters)
A ascensão de presidentes “de fora” do sistema político — Jair Bolsonaro no Brasil (2018) e Gabriel Boric no Chile (2021) — não ficou restrita ao Executivo. Ela provocou também uma ruptura nas bancadas parlamentares. Mas quem foram esses novos deputados que ascenderam? Qual sua trajetória? E o que sua chegada diz sobre o futuro da democracia?
No capítulo “The Election of Outsider Deputies in Chile and Brazil” (Springer, 2025), eu e meus colegas Roberta Picussa e Ednaldo Ribeiro propomos uma resposta a essas perguntas. Desenvolvemos um índice de outsiderismo com base na Teoria de Resposta ao Item (IRT), capaz de mensurar em escala contínua (0 a 10) o grau de distanciamento de cada deputado em relação à política institucional.
Um índice inédito para medir o grau de “forasteirice”
O índice considera oito variáveis: ativismo, associativismo, assessoria legislativa, passagem pela burocracia do Executivo, atuação como secretário/ministro, tempo de filiação partidária, filiação recente e cargos internos na burocracia de partidos políticos. Quanto menos experiência o parlamentar tiver nesses domínios, mais alto seu índice de outsiderismo.
Esse método substitui a dicotomia simplista insider vs. outsider por uma régua contínua, revelando diferentes intensidades e trajetórias de entrada na política. A inovação está justamente aí: nem todo novato é igual — e a ausência de trajetória institucional não implica ausência de inserção política.
Resultados: dois caminhos de renovação política
Os dados empíricos revelam contrastes entre Brasil e Chile:
Brasil (2018):
- Índice médio: 7,8
- 82% dos outsiders são de direita
- 57,5% estão em partidos pequenos e antigos
- 32% vieram do PSL, partido de Bolsonaro — um caso claro de efeito coattail
Chile (2021):
- Índice médio: 5,5
- Distribuição equilibrada entre direita (28,6%), esquerda (28,6%) e independentes (41,1%)
- Maioria veio de partidos novos e pequenos (45,5%) ou tradicionais (39,4%)
Casos extremos: quem são os novatos?
Nosso estudo identificou deputados com nota 10 no índice — os outsiders mais “puros” — e outros com pontuação quase nula, sinalizando perfis tradicionais.
Brasil (nota 10):
- Coronel Tadeu, Delegado Pablo, Sanderson Federal – policiais militares ou federais filiados ao PSL apenas no ano da eleição.
- Tabata Amaral – jovem cientista política formada em Harvard, com trajetória em movimentos cívicos de renovação como o RenovaBR.
Brasil (nota 0):
- João Roma – longa trajetória na burocracia pública e partidária, ligado ao PRB.
- Alexandre Padilha – ex-ministro da Saúde, militante histórico do PT.
Chile (nota 10):
- María Mercedes Nuñez – advogada de direitos humanos, sem filiação, eleita como independente.
- Francisco Pulgar – comunicador popular, outsider completo com trajetória fora da política institucional.
Chile (nota baixa):
- Ana María Bravo – ex-secretária regional e funcionária pública desde 1998, filiada ao Partido Socialista desde 2006.
Esses exemplos mostram que o outsiderismo não é sinônimo de amadorismo ou estranheza diante do mundo político — mas sim de trajetórias não convencionais, que podem ser tão articuladas quanto as tradicionais, embora diferentes.
Tipologias e implicações para a democracia
A pesquisa recupera a tipologia de Carreras (2012), que distingue:
- Amadores: sem experiência e filiados a partidos tradicionais
- Mavericks: políticos experientes que rompem com o establishment
- Outsiders completos: sem carreira política e filiados a partidos novos ou independentes
A aplicação do índice permite não apenas confirmar essas tipologias, mas introduzir gradações e híbridos, essenciais para compreender a nova morfologia da representação política.
Desinstitucionalização e crise de governabilidade
A presença maciça de outsiders tem raízes no colapso da confiança institucional:
- No Brasil, a confiança em partidos caiu de 24% (2010) para 13% (2020)
- No Chile, de 20,6% para 5%
Esse cenário alimenta candidaturas anti-establishment, que ao serem eleitas em massa, fragilizam ainda mais os mecanismos clássicos de representação. A literatura (Carreras, 2014) já alertou: presidentes outsiders aumentam o risco de conflitos entre Executivo e Legislativo, e parlamentos repletos de novatos sem inserção partidária tornam a governabilidade mais frágil.
Por que isso importa?
A principal contribuição do estudo está em propor uma ferramenta de análise comparada — mais sensível às diferenças, estatisticamente validada, e capaz de captar a complexidade da entrada de novos atores na política.
A abordagem supera a dicotomia simplista insider/outsider e permite avaliar graus de distanciamento dos agentes do sistema político, com base em trajetórias reais.
O índice de outsiderismo pode ser replicado em outros contextos e ilumina as tensões entre renovação democrática e instabilidade institucional.
A eleição de outsiders é sintoma de algo maior: a transformação (ou desorganização) dos sistemas partidários latino-americanos. Saber quem são esses novatos — e o que representam — é o primeiro passo para entender para onde nossas democracias estão indo.

