O prestígio dentro do Congresso ajuda a vencer eleições?
O que aprendemos ao seguir a trajetória dos “Cabeças do Congresso” indicados pelo DIAP
Deputado federal Dr. Francisco (PT-PI) na lista dos 50 mais influentes do DIAP em 2023.
Desde 1994, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) publica anualmente uma lista dos 100 parlamentares mais influentes do Brasil. São os chamados “Cabeças do Congresso”.
Esses nomes são selecionados com base em três critérios principais: cargos ocupados (como presidência de comissões), reputação entre pares e especialistas (jornalistas, assessores, cientistas políticos) e capacidade decisória, isto é, influência efetiva no processo legislativo.
Esses deputados se destacam por sua habilidade em articular negociações, liderar debates e formular propostas relevantes.
Mas será que esse reconhecimento interno ao Parlamento se converte em vantagem eleitoral? Deputados com esse prestígio tendem a ser mais ambiciosos politicamente? E, mais importante: vencem mais eleições?
Foi para responder a essas perguntas que, em coautoria com Nilton Sainz, Gabryela Gabriel e Victor Miranda, investigamos a trajetória dos deputados federais eleitos em 2014 ao longo da 55ª legislatura (2015–2018).
Referência: Sainz, N., Codato, A., Gabriel, G., & Miranda, V. (2022). O poder dos “cabeças do Congresso”: a ambição política e as chances eleitorais dos premiados do DIAP. E-legis − Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação da Câmara dos Deputados, 15(37), 58–78. https://doi.org/10.51206/elegis.v15i37.749
Ambição política: quem sobe, quem fica, quem desce?
A literatura sobre carreiras políticas distingue quatro tipos clássicos de ambição:
Ambição progressiva: quando o político tenta subir na hierarquia, buscando cargos como senador, governador ou prefeito de capital;
Ambição estática: quando o foco é a reeleição para o mesmo cargo;
Ambição regressiva: o parlamentar decide concorrer a um posto de menor prestígio (como vereador ou prefeito de cidade do interior);
Ambição discreta: quando o político decide não disputar nenhuma eleição.
Nosso objetivo foi observar como esses padrões se distribuíam entre os deputados premiados e não premiados pelo DIAP e como isso se refletia em seus resultados eleitorais nas eleições subsequentes de 2016 (municipais), 2018 (gerais) e 2020 (municipais).
Um retrato dos “Cabeças”: poucos e persistentes
Dos 513 deputados eleitos em 2014, apenas 87 (cerca de 17%) foram premiados pelo DIAP ao menos uma vez ao longo da legislatura. Esses foram os que consideramos parlamentares com alto capital político.
Dentro desse grupo, 47 foram “muito premiados” (três ou quatro vezes) e 40 “pouco premiados” (uma ou duas vezes). A grande maioria dos deputados (83%) não recebeu nenhum prêmio como “Cabeça” durante o mandato (2015-2019).
Paulinho da Força (Solidariedade-SP) e Aécio Neves (PSDB-MG) entre os 100 parlamentares mais influentes do Congresso em 2019 (Foto: Jefferson Rudy Agência Senado).
O que mostram as escolhas de carreira?
Nas eleições municipais de 2016 e 2020, mais de 80% dos deputados simplesmente optaram por não concorrer — o que chamamos de ambição discreta.
Nas poucas candidaturas observadas, notamos que os não premiados buscaram cargos de menor prestígio, como prefeituras de cidades pequenas, indicando ambição regressiva — ou seja, uma tentativa de sobrevivência política fora do centro do poder legislativo nacional.
Já nas eleições gerais de 2018, que encerraram a legislatura, o cenário foi outro.
Quase 90% dos deputados concorreram novamente, sendo que os “muito premiados” tenderam fortemente à reeleição (ambição estática), enquanto os “pouco premiados” arriscaram com mais frequência a ambição progressiva, tentando alcançar cargos mais altos como o Senado ou governos estaduais.
Os não premiados, em sua maioria, buscaram a reeleição ou desistiram da disputa.
Esses dados desafiam parcialmente uma tese clássica sobre a política parlamentar do Brasil, formulada por David Samuels, segundo a qual deputados mais influentes tenderiam a sair da Câmara para buscar cargos no Executivo, considerados mais poderosos.
Nosso estudo mostra um padrão mais estável: os parlamentares mais reconhecidos pelo DIAP preferem ficar — e investir na continuidade de sua atuação legislativa. Isso porque o Parlamento brasileiro vem adquirindo mais e mais poder ao longo dos últimos anos.
Como lemos os dados: o que dizem os testes estatísticos?
Para saber se existe ou não uma relação significativa entre duas variáveis — como “ter sido premiado pelo DIAP” e “buscar um cargo mais alto” — utilizamos algumas ferramentas estatísticas simples, mas eficazes:
Teste de associação (Qui-quadrado)
O teste verifica se a distribuição de uma variável depende da outra. Por exemplo: deputados premiados pelo DIAP tendem a apresentar um tipo de ambição política diferente dos não premiados? Ou esse comportamento ocorre ao acaso?
O Qui-quadrado compara o que foi observado com o que seria esperado se não houvesse relação entre as variáveis.
Quando a diferença entre o observado e o esperado é grande o suficiente (estatisticamente falando), dizemos que há uma “associação significativa”.
É como perguntar: a distribuição dos tipos de ambição (progressiva, estática etc.) varia de forma sistemática entre premiados e não premiados, ou é só ruído?
Razão de chance (Odds Ratio) e Risco Relativo (RR)
Essas duas medidas servem para comparar grupos. Elas estimam quanto mais provável é que um grupo apresente determinado resultado em comparação ao outro.
· Odds Ratio (razão de chance): compara as chances relativas de um evento ocorrer entre dois grupos. Um valor acima de 1 indica que o evento é mais provável no grupo de referência (por exemplo, entre os premiados). Abaixo de 1, indica menor chance.
· Risco Relativo (Relative Risk): mede diretamente a proporção de sucesso (ou fracasso) entre grupos. Também é interpretado em relação ao valor 1. Um RR de 1,5, por exemplo, indica que o grupo analisado tem 50% mais chance de obter determinado resultado do que o grupo de comparação.
Esses testes ajudam a responder, com base nos dados, perguntas como: ser reconhecido como líder legislativo aumenta de fato as chances de vitória nas urnas? Ou essa vantagem é apenas aparente?
No nosso caso, os resultados mostraram que o prestígio dentro do Congresso não garante vantagem eleitoral — pelo menos entre os deputados que analisamos.
Em nenhuma das três eleições (2016, 2018, 2020) houve associação significativa entre ser um “Cabeça do Congresso” e obter sucesso eleitoral.
Nas eleições municipais, os não premiados inclusive se saíram melhor, ainda que disputando cargos de menor prestígio. Já em 2018, os premiados e não premiados tiveram chances semelhantes de vitória, mas os não premiados correram riscos ligeiramente maiores de derrota.
Em resumo: o prestígio dentro do Parlamento não parece garantir apoio popular fora dele.
Bancada do PT no Senado em 2023 (Foto Alessandro Dantas).
O que isso nos diz sobre carreiras políticas no Brasil?
Esses resultados indicam que o reconhecimento legislativo influencia, sim, o tipo de ambição política — isto é, as decisões estratégicas de carreira — mas não se traduz necessariamente em votos.
Ser um parlamentar influente é importante para quem joga o jogo dentro da Câmara. Mas para o eleitor médio, esse prestígio tem pouco apelo.
Essa dissociação entre capital político interno e desempenho eleitoral sugere que o sistema político brasileiro funciona em múltiplos planos.
De um lado, parlamentares acumulam influência institucional por meio de cargos, negociações e reputação. De outro, suas chances nas urnas dependem de variáveis como visibilidade local, controle de recursos, coligações partidárias e inserção em redes eleitorais poderosas.
A lógica das carreiras também é plural: enquanto alguns optam por permanecer no cargo e consolidar sua atuação legislativa, outros buscam alternativas fora da Câmara — por cálculo estratégico ou necessidade de sobrevivência.
Posse dos deputados da atual legislatura na Câmara em 1 de fevereiro de 2023 (Foto: Cristiano Mariz).
Conclusão
Nosso estudo confirmou, ao menos parcialmente, a ideia de que o capital político acumulado dentro do Congresso molda as escolhas de carreira dos parlamentares. Deputados reconhecidos como influentes tendem a buscar reeleição ou ascensão a cargos mais altos. No entanto, esse prestígio não se traduz automaticamente em sucesso eleitoral.
Em um sistema político com ampla circulação entre cargos e múltiplas arenas de competição, a influência legislativa é apenas uma entre muitas formas de acumular capital político.
Para os cientistas políticos, isso nos obriga a repensar a relação entre prestígio institucional e legitimidade eleitoral. Para os parlamentares, talvez reste uma lição mais prática: ser “Cabeça do Congresso” ajuda a mandar mais, mas nem sempre a ganhar mais votos.





Isso é fascinante. Poder político não se reflete nas urnas. Há que se ter uma atuação para os “pares” e outra para o eleitorado.