O problema da ficha de hotel: por que não sabemos quem realmente governa o Brasil
Quando um político preenche sua declaração ao TSE no momento da candidatura, ele pode escrever, no campo “ocupação”, qualquer coisa. Ou até nada. Em geral, políticos com mandato registram o cargo atual (vereador, prefeito, “político” etc.). Esses nomes – deputado, governador etc. – omitem fortunas acumuladas, empresas próprias, terras a perder de vista e uma série de vínculos familiares que definiriam sua real posição social. O projeto do Observatório das Elites Políticas e Sociais do Brasil, da UFPR, em associação com o INCT ReDem, coordenado por dois pesquisadores da UFPR, Mateus de Albuquerque e Pedro Bergamaschi, é hoje o mais ambicioso de mapeamento das elites políticas brasileiras. “Elites 2025: a classe da classe política” irá mostrar o que 111 variáveis podem dizer sobre os 702 ocupantes dos principais cargos políticos do país*.
*Este texto se baseia na apresentação da pesquisa que Mateus e Pedro fizeram no Encontro científico da ANPOCS na Unicamp em outubro de 2025.
Cartaz de propaganda da candidatura de Julio Prestes à Presidência da República em 1930 (blog Imagens e História).
Políticos profissionais, empresários invisíveis
Quando um senador preenche sua declaração ao Tribunal Superior Eleitoral, ele escreve na linha “ocupação”: senador. Um deputado federal escreve: deputado. A informação não está tecnicamente errada, mas esconde quase tudo que importa. É como preencher uma ficha de hotel: você anota nome, número do documento e endereço, nada mais. Informações objetivas, factuais, básicas e... superficiais, já que revelam nada sobre quem você realmente é.
Mateus de Albuquerque e Pedro Bergamaschi chamam isso de “problema da ficha de hotel”. E ele representa um dos principais obstáculos para entendermos quem de fato governa o Brasil. Os dados oficiais sobre políticos brasileiros capturam apenas o momento presente de suas trajetórias políticas. Ocultam suas origens sociais, suas fortunas, suas empresas, suas terras, seus vínculos familiares e econômicos. Ocultam, em suma, sua classe social, essa palavra tão fora de moda na Ciência Política.
Por que precisamos conhecer a classe dos políticos
O projeto de pesquisa “Elites 2025: a classe da classe política brasileira” parte de uma pergunta simples e radical: quem são, de fato, as pessoas que ocupam os principais cargos políticos do país? Não suas ocupações declaradas ao TSE, mas suas posições na estrutura social brasileira.
A questão, naturalmente, não é nova, nem original. Desde pelo menos os anos 1950, sociólogos como C. Wright Mills e G. William Domhoff investigaram se as elites políticas formavam um grupo homogêneo e se conseguiam traduzir seus interesses de classe em decisões de governo (o que se chama hoje “políticas públicas”). O debate ganhou atualidade com estudos recentes mostrando que, em muitas democracias ao redor do mundo, políticos eleitos tendem a ser substancialmente mais privilegiados, e em alguns países muito, muito mais privilegiados em termos de renda, educação e patrimônio, do que os cidadãos que dizem representar.
ver a ampla revisão de literatura por Carnes, Nicholas, and Noam Lupu. 2023. “The Economic Backgrounds of Politicians.” Annual Review of Political Science 26: 253-270. https://doi.org/10.1146/annurev-polisci-051921-102946
alerta de spoiler: vejam só, o artigo também conclui que políticos de diferentes backgrounds econômicos tendem a pensar e se comportar de forma diferente quando em cargo público, o que tem implicações diretas para as políticas públicas que apoiam.
No Brasil, tudo isso ganha uma face particularmente dramática. Vivemos em um dos países mais desiguais do planeta, com concentração extrema de riqueza, terra e poder. Conhecer a estrutura de classes das elites políticas não é uma curiosidade sociológica ordinária. É um requisito básico para entender os limites estruturais da representação democrática.
111 variáveis para entender quem governa: uma radiografia das elites do poder
O universo de análise compreende 702 pessoas que estavam ocupando posições estratégicas no sistema político brasileiro em julho de 2025: os 513 deputados federais, os 81 senadores, o presidente e vice-presidente da República, os 27 governadores e vice-governadores estaduais, e os 26 prefeitos e vice-prefeitos das capitais.
· É essencialmente um censo das elites políticas brasileiras: uma fotografia completa de quem está no poder em 2025. A cada cinco anos, o levantamento será refeito, construindo uma série histórica sobre a evolução (ou cristalização) da estrutura de classes no campo político.
Para cada um desses indivíduos, a pesquisa está coletando 111 variáveis distribuídas em quatro dimensões. A dimensão educacional mapeia instituições de ensino frequentadas, áreas de formação, níveis de titulação e países onde estudaram. A dimensão econômica registra rendas declaradas, patrimônio e propriedades. A dimensão empresarial identifica vínculos com empresas do titular e do cônjuge, tanto ativas quanto inativas, revelando trajetórias empresariais passadas. A dimensão fundiária documenta propriedades rurais, áreas produtivas e terras em diferentes regiões do país.
Essa amplitude de variáveis permitirá superar o “problema da ficha de hotel”. Um político pode declarar-se “médico”, mas essa categoria oculta diferenças fundamentais: ser médico assalariado do SUS ou proprietário de rede hospitalar privada representa posições de classe radicalmente distintas. Ser “empresário” pode significar controlar desde uma microempresa de barras de doce de leite até um conglomerado oligopolista do tipo JBS. Ser “produtor rural” pode indicar um pequeno agricultor familiar ou um latifundiário com milhares de hectares de soja.
Cartaz da chapa para a sucessão de Washington Luiz: “a força do nosso idealismo […] indica […] os bons cidadãos Júlio Prestes e Vital Soares para a Presidência da República” (Imagem: Memorial da Democracia).
Desvendando a estrutura de classes das elites políticas
A metodologia combina seis fontes de dados: o TSE (candidaturas e declarações de bens), a Câmara dos Deputados e o Senado Federal (informações biográficas), o Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (trajetórias políticas detalhadas), coleta prosopográfica manual em fontes diversas, o sistema SINARC da Receita Federal (participações societárias e empresas vinculadas) e o sistema SIGEF do INCRA (propriedades rurais georreferenciadas).
Essa triangulação de fontes é essencial e a essência da prosopografia contemporânea. Os dados do TSE, por mais importantes que sejam, capturam apenas informações autodeclaradas e frequentemente incompletas (ou manifestamente erradas...).
A “profissionalização política” torna o problema ainda mais agudo. O número de políticos que se declaram profissionalmente como apenas “políticos” cresceu continuamente desde a redemocratização. São pessoas que fazem carreira no sistema político, ocupando sucessivos cargos eletivos e de nomeação.
Vejam que interessante: entre candidatos a deputado federal em 2006, apenas 11% se declaravam “políticos profissionais”, mas eles representavam 47% dos eleitos. Ou seja, quase metade dos deputados federais se apresenta como “político”, só isso, ocultando formações profissionais anteriores, vínculos empresariais e origens sociais que definem suas verdadeiras posições de classe.
O cruzamento com o SINARC revela, por exemplo, quais empresas estão registradas em nome desses políticos e de seus cônjuges, em que setores atuam, qual seu porte e capital social. O cruzamento com o SIGEF identifica propriedades rurais certificadas, suas áreas exatas e localizações geográficas. Essas informações podem até aparecer nas declarações de bens ao TSE, mas nem sempre, seja porque estão em nome de familiares ou empresas, seja por subnotificação deliberada de patrimônio ou valores.
O que se encontrou (até agora)
O projeto está em andamento. Os dois primeiros blocos de variáveis, que incluem dados demográficos, formação educacional, trajetória política, vínculos familiares e propriedades pessoais declaradas, já foram completados pela equipe de 3 estudantes de graduação, 7 mestrandos e 12 doutorandos em Ciência Política da UFPR. Os blocos restantes, que dependem do processamento das bases SINARC e SIGEF, devem ser concluídos até dezembro de 2025.
Ainda assim, os dados já coletados revelam padrões. A distância entre as elites políticas e a população brasileira aparece de forma cristalina nos níveis educacionais. Enquanto apenas 18% dos brasileiros têm ensino superior completo, a quase totalidade dos ocupantes de cargos estratégicos possui formação universitária, muitos com pós-graduação em instituições nacionais e internacionais de prestígio.
A análise completa permitirá responder a duas questões clássicas da sociologia das elites.
· o grau de homogeneidade: em que medida as elites políticas compartilham origens sociais, trajetórias educacionais, vínculos econômicos e valores?
· a capacidade de influência: como e em que medida essas elites conseguem traduzir seus interesses de classe em decisões políticas concretas?
Por que isso importa
O Brasil convive com uma tensão permanente entre a promessa democrática da representação e a realidade do monopólio dessa representação por elites políticas social e economicamente muito distantes da maior parte da população. Compreender a estrutura de classes dessas elites não resolve essa tensão na prática, naturalmente, mas oferece instrumentos analíticos para enfrentá-la com clareza.
Diferentes tradições teóricas convergem ao identificar vínculos estruturais entre poder político e poder econômico. A perspectiva marxista (Miliband) demonstra convergências sociológicas entre elites políticas e econômicas, mesmo admitindo certa autonomia relativa do Estado diante delas. A perspectiva bourdieusiana (Gaxie), enfatiza como o campo político reproduz desigualdades através de barreiras simbólicas e materiais ao acesso. A tradição da análise de estrutura de poder (power structure analysis), desenvolvida por Mills (1956) e Domhoff (1968), argumenta que existe uma elite relativamente homogênea (origens sociais, trajetórias educacionais e redes de relacionamento) com capacidade concreta de influenciar as decisões políticas mais importantes da sociedade.
O projeto dialoga com essas tradições (marxismo “instrumentalista”, sociologismo bourdieusiano, elitismo radical) sem se limitar a uma delas. Reconhece que classe social é conceito multidimensional: envolve posição nas relações de produção, mas também renda, escolaridade, propriedades, cultura e estilos de vida. Por isso a opção metodológica por 111 variáveis cobrindo diferentes facetas da estratificação social.
Os resultados prometem oferecer o retrato mais completo já produzido sobre as estruturas de classe que atravessam (e atrasam) o poder político brasileiro.
Cartaz da Aliança Liberal: “governo que virá restabelecer a paz com a anistia e garantir a opinião do povo com a liberdade das urnas” (Imagem: Memorial da Democracia).
A classe oculta da política brasileira
Os blocos de dados sobre vínculos empresariais e propriedade fundiária representam as dimensões mais invisíveis até aqui da estrutura de classes das elites políticas. A propriedade fundiária é especialmente relevante no Brasil, país marcado por concentração extrema de terras e peso político desproporcional do agronegócio. Quantos políticos possuem grandes propriedades rurais? Em que regiões? Produzindo o quê? Como se conectam com outros setores capitalistas (bancos, indústrias). Essas perguntas serão respondidas quando o cruzamento com o SIGEF estiver completo.
Da mesma forma, o cruzamento com o SINARC revelará a dimensão empresarial das elites. Não apenas quais setores econômicos têm mais representantes no poder, mas como se estruturam as redes de propriedade e controle corporativo. Políticos que se declaram “empresários” podem controlar microempresas ou conglomerados. Essa diferença define posições de classe radicalmente distintas, com implicações diretas para a visão de mundo e as votações legislativas.
A conclusão da coleta está prevista para o fim de 2025. Ao longo de 2026 serão feitas análises estatísticas descritivas, comparativas e preditivas. O objetivo é construir tipologias das elites políticas que permitam classificá-las em grupos segundo dimensões de classe, trajetórias e recursos acumulados.
Mas talvez o resultado mais importante não esteja nos números em si. Está em desmontar a ficção de que não sabemos quem governa o Brasil. Sabemos, ou podemos saber, se dispusermos dos instrumentos adequados. O “problema da ficha de hotel” não é uma fatalidade metodológica. É uma ignorância política que pode ser revertida através de pesquisa sistemática, triangulação de fontes e compromisso com a transparência científica.
Substack também é cultura acadêmica (leituras básicas no tema):
Barrow, C. W. (1993). Critical theories of the state: Marxist, neo-Marxist, post-Marxist. University of Wisconsin Press.
Domhoff, G. W. (1968). Who rules America? Prentice-Hall.
Gaxie, D. (2003). La démocratie représentative. Montchrestien.
Gaxie, D. (2012). As lógicas do recrutamento político. Revista Brasileira de Ciência Política, (8), 165-208.
Miliband, R. (1969). The state in capitalist society. Weidenfeld & Nicholson.
Mills, C. W. (1956). The power elite. Oxford University Press.
Tudo, tudo isso só é possível com financiamento público à ciência.
Mateus de Albuquerque, coordenador do Observatório de Elites da UFPR, é bolsista de pós-doutorado da Fundação Araucária, a fundação de amparo à pesquisa do Paraná. Faz a coordenação acadêmica do Elites 2025 e é pesquisador do INCT ReDem.
Pedro Bergamaschi, faz a coordenação executiva do Elites 2025, é doutorando em Ciência Política na UFPR e bolsista CAPES, além de pesquisador do INCT ReDem.
Ambos farão um estágio em 2026 no International Inequalities Institute da London School of Economics com financiamento do CNPq.
Uma parte importante da equipe do Elites 2025 é bolsista IC do CNPq ou bolsista de mestrado e doutorado da CAPES.
Eugénio Kapiñala, Felipe Paz, Fernanda Azevedo, Lucas Montesdioca, Mariana Dourados, Mariana Figueiredo, Marília Ferreira, Marta Pontes de Campos, Mayara Pereira, Paula Portela, Pedro Bergamaschi, Pedro Beff, Seani Duarte, Vagner Maciel, Vinicius Poteriko, Vittorio Dalicani, Willane Pantoja, Yago Rabelo, Yasmim Nantes
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