O problema fatal da causalidade metonímica: você nunca pode estar errado
(parte 5 de 6)
Irrefutabilidade, escapatórias teóricas e o limite da explicação estrutural
Coleção ciência da ciência
Se identificar estruturas invisíveis já é difícil, o problema se agrava quando não sabemos como testá-las. A Parte 5 enfrenta essa questão de frente: o risco de uma explicação que nunca pode estar errada.
A fuga perfeita: por que a teoria nunca falha
Aqui chegamos ao ponto mais delicado dessa conversa toda (ver posts 1, 2, 3 e 4). Nossos amigos estruturalistas sempre podem recorrer a escapatórias com suas formulações retóricas: a “totalidade das articulações” nunca é observável completamente, as “contradições são constitutivas da estrutura” (e aí qualquer anomalia vira confirmação), há “temporalidades múltiplas agindo” (se não vejo efeito agora, espere então cinquenta anos), há “níveis de determinação” muito complexos (a coisa está acontecendo onde você não mediu).
Isso cria a proteção perfeita contra a refutação. A tese torna-se irrefutável, e uma tese irrefutável não é científica no sentido estrito.
Isso é análogo aos truques que Karl Popper criticava na psicanálise e no marxismo vulgar: se o paciente rejeita a interpretação, isso é “resistência” e a resistência confirma a interpretação. Se a revolução social não ocorre, é porque “as condições objetivas ainda não amadureceram”. Althusser tentou fazer o marxismo escapar dessa armadilha, mas sua solução a reproduziu em outro registro: ao invés de “espere pela revolução”, é “confie na estrutura invisível”...
Fayga Ostrower. Cartão de Natal. Composição abstrata. Água-tinta em cores sobre papel (1966). Instituto Fayga Ostrower
Entre a teleologia e a irrefutabilidade
Para Montag (2018), a noção de causalidade estrutural em Althusser visou romper com modelos clássicos de causalidade (lineares, expressivos) segundo os quais a história obedeceria a um princípio interno que se realiza progressivamente em seus efeitos. Esses modelos sustentaram tanto o evolucionismo social-democrata, que via o capitalismo avançando “naturalmente” para o socialismo, quanto o voluntarismo ultraesquerdista, que apostava na aceleração política de uma necessidade histórica já dada. A crítica althusseriana recusa essa teleologia imanente, frequentemente expressa em fórmulas como “capitalismo tardio” ou “primeiros estágios da transição para o comunismo”, ao negar que a estrutura se manifeste como essência, fundamento ou finalidade da história. Mas, ao escapar da teleologia, Althusser criou um problema epistemológico distinto: uma teoria estrutural que, ao não operar com causas observáveis ou sequências lineares, torna-se empiricamente irrefutável. Não se trata de trocar um defeito por outro, mas de que a solução para o primeiro problema gerou um segundo, pior e não antecipado.
O que tornaria o estruturalismo empiricamente defensável
Estruturalismo seria mais defensável se especificasse ex ante que padrões contariam como evidência contra a hipótese; ou se quantificasse “grau de estruturação” como contínuo, não binário; ou ainda, se comparasse sistematicamente seu poder explicativo com teorias rivais. Enfim, se aceitasse suas derrotas, reconhecendo quando não há estrutura profunda, apenas contingências agregadas.
Outras abordagens têm problemas análogos. Nossos amigos institucionalistas também têm suas escapatórias: a reforma não funcionou? “Implementação inadequada”. Mesma instituição, efeitos diferentes? “Contextos importam”. Instituição muda, mas comportamento não? “Culpa das instituições informais”. Escolha racional também: ator não maximizou utilidade? “Informação imperfeita”. Preferências inconsistentes? “Racionalidade limitada”.
Mas há uma diferença crucial: as escapatórias do institucionalismo e da escolha racional ainda operam no terreno do observável. Você ainda pode medir “qualidade da implementação”, verificar “informação disponível”, testar “racionalidade limitada”. São ad hoc, mas potencialmente testáveis. A escapatória estruturalista é mais radical: ela opera com entidades que, por definição, não são diretamente observáveis. Quando tudo o que você mede é “efeito” e nunca a “estrutura”, a irrefutabilidade vem de fábrica.
Uma proposta conciliatória: usar estruturas sem abandonar modelos analíticos
Na prática, o conceito de causalidade metonímica pode ter valor na fase exploratória da pesquisa. Bem usada a ideia, daria para identificar padrões relacionais que variáveis isoladas não capturam, interpretar por que modelos formais falham, pensar sobre fenômenos complexos de modo não linear.
Uma proposta conciliatória operacional poderia ser:
a) Use modelos estatísticos rigorosos para identificar padrões e testar hipóteses específicas, isto é, não comece presumindo que já há “estrutura profunda”,
b) Quando seu modelo deixa padrões sem explicar, e esses padrões se comportam de forma sistemática (ou seja, não são aleatórios), trate isso não como “erro”, mas como possível evidência de dinâmicas estruturais mais profundas,
c) Especifique de antemão que tipos de padrões inexplicados contariam como evidência de “determinação estrutural”. Se há estrutura profunda, você deveria ver os mesmos padrões se repetindo ao longo do tempo, aparecendo em múltiplas dimensões simultaneamente e resistindo mesmo quando você controla pelas variáveis mais óbvias,
d) Compare sistematicamente o poder explicativo de modelos estruturais versus não-estruturais: qual explica melhor? Qual prevê melhor? Use critérios objetivos de comparação (AIC/BIC para parcimônia, validação cruzada para capacidade preditiva, testes em dados que você não usou para criar o modelo etc.).
Estruturas existem, mas não em todo lugar. A questão é quando elas importam, não presumir que sempre importam.
Para quem trabalha com grandes bases de dados sobre elites políticas (digamos, 420 mil observações codificadas em 111 variáveis), o conceito impõe uma pergunta incômoda: suas variáveis capturam apenas a superfície observável de determinações profundas?
Como naquele bolero, às vezes sim, às vezes não.
Quando suas variáveis conseguem explicar bem o fenômeno, ou seja, quando as relações são claras, diretas, e não sobra muita coisa sem explicação, provavelmente não há “estrutura profunda” operando. É só o que você está medindo mesmo. Mas quando, mesmo depois de controlar por tudo que você conhece, ainda sobram padrões estranhos que se repetem e que você não consegue explicar com suas variáveis, que aparecem de novo e de novo em lugares diferentes, em momentos diferentes, aí vale investigar se não há algo mais profundo acontecendo.
Porém, você não pode simplesmente dizer “opa, tem coisa estranha aqui, logo tem estrutura profunda”. Você precisa especificar antes de olhar os dados: “Se essa estrutura existe, eu deveria ver X, Y e Z acontecendo juntos; se eu vir A, B ou C, minha teoria está errada”.
Sem isso, você está apenas dizendo: tudo que eu não consigo explicar é culpa da estrutura invisível.
Síntese para quem tem pressa e não quer só metáforas
A causalidade metonímica é uma ideia estimulante vestida de vocabulário desnecessariamente difícil: estruturas sociais não existem “acima” das práticas cotidianas, mas dentro delas, não antecedem seus efeitos, são constituídas por eles. “Patrimonialismo” não é força invisível comandando o comportamento dos políticos, é o próprio padrão formado por nepotismo, clientelismo e apropriação do público operando juntos, reforçando-se mutuamente, reproduzindo-se por meio das ações de agentes que nem percebem o que estão perpetuando.
Esse conceito lembra que padrões estatísticos não são explicações, que intenções individuais não esgotam a causação, que agregados de ações não capturam necessariamente a lógica que as organiza. Mas tudo isso nos força também a pensar: se você não consegue especificar o que refutaria sua “estrutura”, então não tem estrutura, tem apenas metáfora.
A causalidade metonímica ensina, afinal, algo importante: nem tudo que importa pode ser medido diretamente. Mas ensina também o outro lado: nem tudo que não pode ser medido diretamente importa. Aí reside a dificuldade da tal ciência social.
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