Quando os candidatos da nova política encontraram a velha rotina legislativa
O RenovaBR, o Acredito e o MBL quiseram reinventar a política.
Kim Kataguiri, Arthur do Val e Fernando Holiday, do MBL (Foto: Karime Xavier/Folhapress)
As eleições de 2018 foram marcadas por uma suposta onda de renovação política. O discurso dominante era de rompimento com a “velha política” — e a chegada de rostos novos à Câmara dos Deputados parecia confirmar isso.
Mas será que essa renovação significou, de fato, uma mudança estrutural na política brasileira? Os deputados eleitos com esse espírito “renovador” se comportaram de maneira diferente dos veteranos no exercício do mandato?
Essas foram as perguntas que motivaram o artigo que escrevi com Roberta Picussa e Renan Arnon de Souza, publicado na Revista Brasileira de Ciência Política em 2023. O objetivo era investigar quem eram esses “novos” deputados e como eles se comportaram na arena parlamentar, especialmente em relação à lealdade aos seus partidos nas votações nominais.
Referência: Picussa, R., Souza, R. A. de, & Codato, A. (2023). Estabelecidos, outsiders e renovadores: mensurando a lealdade partidária dos deputados federais eleitos em 2018. Revista Brasileira de Ciência Política, (41), 1–31. https://doi.org/10.1590/0103-3352.2023.41.267142
Os novatos da política e suas promessas
Em 2018, a Câmara dos Deputados registrou sua maior taxa de renovação desde 1994: 52% dos eleitos eram novos na função. Mas parte relevante desses “novatos” já transitava na política por meio de cargos técnicos ou vínculos partidários.
O que chamou atenção foi o surgimento de candidaturas ligadas a movimentos como o RenovaBR, o Movimento Acredito e o MBL, que se apresentavam como uma resposta à crise de legitimidade dos partidos tradicionais.
Esses grupos funcionaram como “escolas de candidatos”. O RenovaBR, por exemplo, ofereceu formação política e bolsas mensais entre R$ 5 mil e R$ 12 mil a 133 líderes. Destes, 16 se elegeram (10 para a Câmara dos Deputados). O Movimento Acredito lançou 25 candidaturas e elegeu três parlamentares. O MBL, mais conhecido por sua atuação no impeachment de Dilma Rousseff, também conseguiu eleger um nome, Kim Kataguiri (DEM-SP).
Essas organizações compartilhavam uma premissa: a de que era possível renovar a política sem depender dos partidos tradicionais — ainda que, pela legislação, todos os seus candidatos estivessem formalmente filiados a alguma legenda.
Em 2018, Tabata Amaral chegou à Câmara: jovem, sem trajetória partidária e formada por movimentos de renovação política (Foto: Marcelo Brandt/G1).
Como organizamos o estudo
Para avaliar o impacto dessa nova leva de parlamentares, classificamos os 513 deputados federais eleitos em 2018 em três grupos:
Estabelecidos: políticos já eleitos anteriormente — 408 deputados.
Outsiders: eleitos em 2018, sem experiência política prévia — 95 deputados.
Renovadores: um subgrupo dos outsiders, com vínculo declarado a movimentos de renovação política — 10 deputados.
A análise se concentrou em dois aspectos:
O perfil sociopolítico dos parlamentares (idade, raça, gênero, escolaridade, filiação ideológica e financiamento de campanha);
O comportamento nas votações nominais, com foco na disciplina e na lealdade partidária.
Para isso, utilizamos:
O Índice de Rice Ajustado, que mede a coesão dos partidos: valores próximos de 1 indicam que quase todos os deputados do partido seguiram a mesma orientação de voto.
O Índice de Lealdade Partidária, que mostra a proporção de vezes em que cada parlamentar votou conforme o partido. Um valor de 90%, por exemplo, indica que o deputado seguiu o partido em 9 de cada 10 votações.
Os perfis: diferentes, mas nem tanto
As comparações entre os três grupos mostraram algumas diferenças relevantes:
Idade:
Renovadores: média de 33 anos
Outsiders: 45 anos
Estabelecidos: 50 anos
A diferença foi estatisticamente significativa (ANOVA, p < 0,001).
Raça:
A maior parte dos deputados é branca em todos os grupos, mas:
Pretos e pardos: 22% entre Estabelecidos e Outsiders, 0% entre Renovadores
Renovadores incluíram um indígena (Joênia Wapichana) e um amarelo (Kim Kataguiri)
Gênero:
Mulheres eram minoria em todos os grupos. Os Renovadores tinham 30% de mulheres (3 em 10), Outsiders e Estabelecidos giravam em torno de 15% a 17%. A diferença não foi estatisticamente significativa.
Escolaridade:
Renovadores: 90% com ensino superior completo ou mais
Estabelecidos e Outsiders: proporções semelhantes, com pequena variação.
Ideologia partidária (com base em Coppedge, 1997):
Estabelecidos: mais diversidade, com representação em todos os campos ideológicos.
Renovadores: maioria em partidos de direita secular ou direita confessional.
Outsiders: alta concentração na direita confessional (como o PSL).
Financiamento de campanha:
Estabelecidos: média de R$ 1,2 milhão por campanha (com R$ 1 milhão de origem pública).
Outsiders: média de R$ 642 mil, sendo R$ 368 mil públicos e R$ 273 mil privados.
Renovadores: média de R$ 725 mil, sendo R$ 650 mil privados e R$ 75 mil públicos.
A diferença na origem dos recursos foi estatisticamente significativa (p < 0,001).
Sem carreira política prévia e fora dos partidos tradicionais, Pablo Marçal encarna o tipo clássico de outsider (Foto: Renato Pizzutto/Band).
Comportamento parlamentar: a grande revelação
A parte mais surpreendente do estudo veio da análise do comportamento legislativo. A hipótese inicial era que Outsiders e Renovadores tenderiam a votar com mais independência em relação aos partidos. Mas isso não se confirmou.
Índice médio de Lealdade Partidária:
Renovadores: 84%
Outsiders: 89,2%
Estabelecidos: 87,4%
A diferença não foi estatisticamente significativa (ANOVA, p = 0,498). Ou seja, os parlamentares da “nova política” votaram com seus partidos em proporção praticamente igual à dos veteranos.
O caso do partido NOVO, com quatro Renovadores, ajuda a explicar: seus deputados registraram 99,27% de lealdade partidária — praticamente absoluta.
Os Renovadores atuam como um grupo?
Para verificar se os Renovadores votavam de forma semelhante entre si — como um “partido paralelo” —, utilizamos uma Análise de Correspondência Múltipla, que mostra agrupamentos com base em distâncias ideológicas e comportamento de voto.
A Análise de Correspondência Múltipla (ACM) é uma técnica estatística que ajuda a visualizar se diferentes indivíduos — neste caso, os deputados — atuam de maneira parecida. Ela agrupa os parlamentares em um gráfico de acordo com a semelhança de seus votos. Quanto mais próximos os pontos no gráfico, mais parecidos são os comportamentos. Assim, conseguimos ver se os deputados renovadores votam de forma parecida entre si ou se seguem as divisões partidárias e ideológicas tradicionais.
Resultado: os Renovadores se dividem em três subgrupos:
Direita liberal e confessional: NOVO, PSL, DEM
Centro-esquerda secular: PDT, PSB, REDE
Independente/livre: Marcelo Calero (Cidadania), associado ao Livres
Ou seja, nem mesmo entre si esses deputados atuam de forma coesa. A variável mais determinante do comportamento legislativo continua sendo a ideologia partidária.
Alunos durante aulas do curso RenovaBR Cidades 2019 em São Paulo (Arquivo/RenovaBR).
Conclusão: renovação mais estética que substantiva
Apesar das diferenças nos perfis — mais jovens, mais privados, mais “educados” — os deputados da “nova política” se comportaram de maneira semelhante aos veteranos na principal função que o mandato exige: votar.
Os partidos continuam sendo o eixo organizador da ação parlamentar. Mesmo aqueles que fizeram campanha prometendo romper com a política tradicional acabaram se ajustando ao jogo institucional.
A onda de 2018 renovou nomes, biografias e discursos, mas não alterou a lógica de funcionamento da Câmara. A “nova política”, ao que parece, foi mais uma forma nova de entrar no mesmo sistema.




