O que os brasileiros querem dizer quando dizem “democracia”?
Muitas coisas diferentes...
O Estado de S. Paulo publicou no sábado 25 de outubro de 2025 uma matéria de Juliano Galisi: Brasil quer democracia além das ‘quatro linhas’, com direitos sociais. Neste artigo, eu explico metodologicamente o estudo de Ednaldo Ribeiro e Daniel Leonel da Rocha que serviu de base para a reportagem e que sairá em breve em uma coletânea especializada, baseado nos resultados do survey nacional realizado pelo INCT-ReDem.
The word “democracy” on a pedestrian bridge in São Paulo, Brazil, October 26, 2022. © AP Photo/Matias Delacroix 2022
‘Democracia’: estamos falando da mesma coisa?
Quando menos da metade dos brasileiros se declara satisfeita com a democracia, é legítimo perguntar: mas estamos falando da mesma coisa?
A resposta é não. A democracia brasileira abriga uma pluralidade de visões sobre o que constitui um regime democrático.
Essa heterogeneidade de visões e, principalmente, de expectativas explica por que manifestações de “apoio à democracia” podem coexistir com tolerância a violações de princípios básicos. Cada pessoa carrega consigo uma concepção particular do que a democracia deve ser, e essas concepções nem sempre são compatíveis.
Três formas de ser democrata
A pesquisa do ReDem identificou que os brasileiros valorizam três dimensões distintas da democracia, não necessariamente excludentes entre si.
· A dimensão liberal: eleições livres e justas, igualdade perante a lei, proteção aos direitos das minorias, imprensa livre e fiscalização do Executivo pelo Legislativo. São os pilares procedimentais que garantem o funcionamento formal do regime.
· A dimensão social: redução das diferenças de renda pelo governo, pleno emprego, padrão de vida elevado para todos e proteção social aos vulneráveis. Aqui, democracia se confunde com justiça distributiva e bem-estar coletivo.
· A dimensão participativa: oportunidades ampliadas de participação política, uso de referendos para decisões importantes, engajamento em organizações políticas e decisão direta de políticas pelos cidadãos. Trata-se de uma democracia que vai além do voto.
Como medir o que não se vê
Perguntar “você é a favor da democracia?” é inútil quando cada pessoa responde a partir de uma concepção distinta. O desafio metodológico é estimar o conteúdo real do conceito na mente das pessoas.
A solução adotada pelo ReDem foi pedir aos entrevistados que avaliassem o quão essenciais eram mais de uma dezena de atributos diferentes do regime democrático (desde direitos e instituições até redistribuição e participação). Mas ao invés de simplesmente somar as respostas, Ednaldo e Daniel usaram para contabilizá-las a Teoria da Resposta ao Item (TRI), uma técnica que identifica padrões subjacentes às escolhas.
© Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo
A Teoria de Resposta ao Item [intervalo metodológico]
A Teoria da Resposta ao Item é uma abordagem estatística que permite avaliar como diferentes pessoas respondem a itens com diferentes níveis de exigência. Em vez de tratar todas as afirmações como equivalentes e simplesmente somar pontos, a TRI considera que certos elementos de um conceito são mais básicos e consensuais, enquanto outros demandam maior elaboração normativa e coerência interna. Isso cria uma escala hierárquica: indivíduos que reconhecem atributos mais complexos da democracia (como proteção de minorias ou participação direta) quase sempre reconhecem também os fundamentos mínimos (como eleições competitivas e igualdade jurídica), mas o contrário não se verifica necessariamente. Assim, a TRI não mede apenas o quanto alguém concorda com a democracia, mas como essa concordância se organiza conceitualmente.
No survey do INCT-ReDem, os entrevistados avaliaram a importância de 14 atributos da democracia. A TRI permitiu estimar a dificuldade de cada atributo (o quanto ele exige de compromisso democrático) e a posição de cada indivíduo na escala (o quão sofisticada é sua concepção). Com isso, foi possível classificar as pessoas em diferentes perfis — de visões minimalistas até concepções multidimensionais — e calcular um índice contínuo de complexidade normativa. O método garante que a análise não dependa de respostas aleatórias ou de uma simples adição de itens, mas que capture o sentido interno do apoio: se alguém se diz a favor da democracia, de qual democracia está falando e quais princípios esse apoio efetivamente sustenta.
A TRI revelou então que há uma hierarquia de exigência nas concepções democráticas. Quem valoriza democracia direta e proteção de minorias quase sempre já valoriza eleições e Estado de direito. O inverso, porém, não é verdadeiro. Isso permite ordenar as visões desde as mais minimalistas até as mais abrangentes, capturando não apenas o que as pessoas dizem apoiar, mas o nível de complexidade de sua compreensão da democracia.
Os muitos tipos de democratas no Brasil
1. Democracia deve garantir direitos, igualdade e voz, tudo ao mesmo tempo
O maior grupo – mais de 42% – são os democratas multidimensionais: pessoas que valorizam simultaneamente as três dimensões (liberal, social e participativa). Uma democracia genuína precisa garantir eleições e liberdades, mas também justiça social e participação ampliada.
Em termos de organização normativa, é o perfil mais completo e exigente: esses indivíduos consideram que nenhum desses pilares pode ser secundarizado sem comprometer o caráter democrático do regime. Democracia, para eles, não se reduz ao processo e não se cumpre apenas pelo resultado — ela exige ambos, acrescidos da possibilidade de influência ativa dos cidadãos.
2. Democracia sem inclusão social não é democracia completa
Outros 21% da amostra são democratas sociais. São indivíduos que aceitam plenamente os fundamentos liberais da democracia (eleições, competição política, igualdade jurídica), mas não consideram isso suficiente. Para eles, não há democracia legítima se persistirem grandes assimetrias socioeconômicas. Ou seja: a democracia tem de redistribuir poder e condições materiais mínimas aos cidadãos.
Aqui há eco da tradição social-democrata europeia: liberdades e competição eleitoral são indispensáveis, mas insuficientes se não forem acompanhadas de políticas públicas que reduzam desigualdades e ofereçam proteção social ampla.
3. Sem voz contínua, o povo não governa, mas apenas legitima quem governará
Os democratas participativos (1,4%) destacam-se pela ênfase em mecanismos diretos de deliberação. Para eles, a legitimidade do regime depende de maior envolvimento direto da cidadania nas decisões políticas. A participação apenas episódica, limitada ao momento do voto, empobrece a democracia. Aqui, a democracia é concebida como um espaço de governo compartilhado, não como um contrato com representantes.
Essa visão ecoa as correntes participacionistas do pensamento democrático.
Somados, esses três perfis representam 65% dos brasileiros. Assim, dois terços compartilham visões abrangentes da democracia, que transcendem o mínimo procedimental de uma democracia schumpeteriana.
4. A democracia é a regra do jogo da distribuição do poder
O democrata liberal básico (2,9% dos brasileiros na amostra) é o tipo que vê a democracia a partido do seu mínimo denominador comum: igualdade perante a lei, eleições livres e justas e liberdades e garantias próprias do modelo liberal (liberdade de oposição e de imprensa, competição eleitoral entre partidos etc.).
O problema: os não democratas
Mas há o outro lado.
© Joedson Alves/Agencia Brasil
Quase um terço (32%) pode ser classificado como não democrata, mas não porque rejeitem explicitamente a democracia, e sim porque não atribuem importância aos seus elementos procedimentais mínimos: igualdade perante a lei e eleições livres e competitivas. Esse grupo pode até empregar a palavra “democracia” em termos positivos, mas o faz sem compromisso normativo consistente, o que implica tolerância maior a soluções iliberais quando estas podem favorecer o seu lado político preferido.
Uma característica relevante do estudo de Ednaldo Ribeiro e de Daniel Rocha é mostrar que esse grupo não é indiferente à proteção social. Muitos valorizam políticas redistributivas, mas desancoradas de limites democráticos ao exercício do poder.
Por isso, esse grupo representa um desafio para a consolidação democrática, especialmente quando convivemos com narrativas que questionam a integridade das instituições. Para alguns deles, “democracia” pode significar apenas a vontade da maioria, sem as salvaguardas liberais que protegem minorias e limitam o poder.
Então, o que isso tudo significa?
Esta diversidade de visões democráticas tem consequências.
Primeiro, explica por que indicadores de satisfação com o regime captam realidades distintas. Um democrata multidimensional insatisfeito pode estar reagindo à persistência das desigualdades; um não democrata insatisfeito pode simplesmente lamentar que “seu lado” não esteja no poder.
Segundo, revela que o apoio declarado à democracia precisa ser interpretado com cuidado. Dizer-se “democrata” não significa necessariamente aderir a princípios liberais fundamentais.
Terceiro, mostra que a consolidação democrática é um processo contínuo de construção de consensos sobre os fundamentos do regime. Consensos esses que estão longe de estar estabelecidos no Brasil.
Andre Penner / Associated Press
Nota metodológica: Resultados baseados em survey nacional do INCT-ReDem, realizado pelo IPSOS IPEC em fevereiro de 2025, com 1.504 entrevistas presenciais e amostra probabilística representativa da população adulta brasileira. As concepções democráticas foram avaliadas por meio da importância atribuída a 14 atributos do regime (institucionais, sociais e participativos). A análise utilizou modelo hierárquico estimado via Teoria da Resposta ao Item, permitindo classificar desde visões minimalistas até concepções multidimensionais e mensurar sua complexidade normativa.





