Por que cientistas (políticos) simplificam
Abstrair para entender: a ciência (e a arte) dos “modelos”
O que a Ciência Política pode aprender com o Touro de Picasso
Há imagens que ensinam mais. Entre elas, está a famosa série de onze litografias de Pablo Picasso, conhecida como O Touro (1945). Em poucas semanas, o artista partiu de um touro robusto, cheio de volumes e sombras, até chegar a uma figura quase abstrata: meia dúzia de linhas essenciais posicionadas com precisão. E pouca graça.
Essa sequência é mais do que uma curiosidade da história da arte. Ela sintetiza algo fundamental para qualquer pessoa que queira compreender o que cientistas fazem quando constroem modelos, teorias e explicações. No nosso caso, sobre a política.
Construir “modelos” é um exercício de escolher. Essa escolha exige cortar, perder e focar no essencial. Retirar, descascar, remover. Vou resumir aqui uma aula de Métodos para Ciência Política que tenho dado a estudantes de graduação e pós-graduação a partir de Les 11 états successifs de la lithographie Le Taureau, de Picasso.
Pablo Picasso, Tête de taureau selle et guidon bicyclette.
A história de O Touro por Mourlot
“A operação durou quinze dias. Em 5 de dezembro de 1945, um mês após sua chegada à rua de Chabrol [em Paris], Picasso fez, em lavis*, o desenho de um touro. Um touro magnífico, muito bem executado, até dócil. Em seguida, entregaram-lhe a prova; tiramos apenas duas ou três cópias, razão pela qual esse touro é extremamente raro. Uma semana depois, ele volta e pede uma nova pedra litográfica; retoma o seu touro em lavis e pena; recomeça no dia 18. No terceiro estado, o touro é retrabalhado por raspagem plana** e, em seguida, a pena, com forte acentuação dos volumes; o touro transforma-se num animal terrível, com chifres e olhos assustadores. Não satisfeito, Picasso executa um quarto estado, em 22 de dezembro, e um quinto, em 24; a cada vez, simplifica o desenho, que se torna cada vez mais geométrico, com grandes áreas pretas”.
“Sexto e sétimo estados, nos dias 26 e 28 de dezembro; depois, com o retorno de Picasso, mais quatro estados, onze ao todo, nos dias 5, 10 e 17 de janeiro. O touro é reduzido à sua expressão mais simples: alguns traços de maestria excepcional que simbolizam, como um jogo de signos, esse pobre touro de pequena cabeça pontiaguda e chifres ridículos em forma de antena. Os operários lamentavam ter visto um touro tão magnífico transformar-se numa espécie de formiga...”
Fernand Mourlot, Gravés dans ma mémoire. Ed. Robert Laffont, 1979.
* Lavis é a aplicação de tinta (nanquim ou aquarela bem diluída) em camadas leves, criando gradações tonais suaves. O efeito lembra um “lavado”: áreas sombreadas e transparentes, que permitem trabalhar volume e profundidade sem contornos pesados.
**Raspagem plana é a técnica litográfica de remover, de modo nivelado e uniforme, a superfície da pedra para clarear áreas e remodelar o desenho.
Essa série de litografias não são apenas uma curiosidade artística, mas uma pedagogia metodológica.
O que os modelos realmente fazem
A política é caótica, barulhenta, complicada. Deputados mudam de partido, governos adotam políticas contraditórias, eleitores balançam entre ideologias segundo humores da conjuntura. Nenhum modelo analítico consegue dar conta de tudo. Nem conseguiria. O papel de um modelo é iluminar o que importa para entender um fenômeno específico. Picasso não tentava desenhar um touro real, mas o “seu” touro.
A operação mental é semelhante e implica nos seguintes passos:
- abstração, para separar o essencial do contingente;
- simplificação, para remover camadas que atrapalham mais do que ajudam;
- tipificação, para transformar casos particulares em padrões analíticos.
O modelo nunca é o mundo. É uma ferramenta para pensar sobre ele.
O Touro como metáfora do pensamento científico
A série de litografias de Picasso impressas na oficina de Mourlot mostra isso com clareza. No primeiro touro, temos a exuberância dos detalhes: músculos, volume, textura. No terceiro, os traços se adensam, o animal ganha força, até agressividade. Depois, começa a depuração. Linhas são apagadas, volumes desaparecem, o touro vai se tornando uma forma geométrica. Nos últimos estágios, Picasso entrega apenas as linhas indispensáveis para que aquele conjunto ainda signifique “touro”. Se o mundo fosse simples, qualquer pessoa veria essas linhas.
Pablo Picasso. The War Years 1939-1945.
É a mesma dinâmica que opera quando selecionamos variáveis, construímos categorias ou criamos hipóteses. Começamos com o mundo e sua desordem variada. Terminamos com uma representação reduzida, intencional, voltada para uma pergunta específica.
O que parece simplificação ou empobrecimento é, na realidade, método.
O problema é decidir o que deixar de fora
A decisão mais difícil em modelagem não é o que incluir, mas o que excluir.
O desenho final de Picasso só é possível porque muitos elementos foram abandonados no caminho. Assim também acontece na pesquisa em Ciência (Política): cada variável incluída exige justificar por que outras ficaram de fora; cada hipótese formulada pressupõe que outras hipóteses possíveis foram descartadas. Por isso, não existe modelo “completo”. Existe modelo adequado a um propósito.
Esse é um ponto que estudantes às vezes estranham. Se a pesquisadora sabe que a realidade é mais complexa que seu modelo, não deveria tentar representar tudo? Não, porque tentar representar tudo é não representar nada. Modelos não são vitrines, são “instrumentos analíticos”.
Como cientistas (políticos) simplificam sem distorcer
Quando construímos um modelo explicativo, seja sobre comportamento eleitoral, mudança institucional, seja sobre a dinâmica legislativa seguimos uma lógica muito parecida com aquela de Picasso:
1. Começamos com o fenômeno em detalhe: dados brutos, documentos, entrevistas, estatísticas, observação.
2. Selecionamos os traços relevantes: partidos, incentivos eleitorais, posicionamento ideológico, coalizões, regras do jogo.
3. Desenhamos o primeiro rascunho: hipóteses gerais, relações causais possíveis.
4. Ajustamos, apagamos, depuramos: testamos hipóteses, verificamos correlações, observamos padrões, retiramos o que não ajuda.
5. Chegamos à forma essencial: um conjunto claro de explicações possíveis, articulado em torno de poucos elementos-chave.
O touro número 11 só faz sentido quando conhecemos os 10 anteriores. O modelo final só existe porque percorremos todas as etapas de seleção, teste e depuração.
PABLO PICASSO (1881-1973), Taureau (A.R. 255), © Christie’s
Por que modelos não são inimigos da realidade
A crítica mais comum aos modelos é que eles “simplificam demais”. Mas é essa simplificação que torna possível compreender algo em meio ao caos. Modelos estatísticos, por exemplo, não tentam capturar cada nuance da motivação humana. Eles na realidade identificam padrões sistemáticos. Da mesma forma, modelos qualitativos não procuram contar todas as histórias, mas aquelas que revelam mecanismos relevantes.
Um bom modelo não diz: “Foi exatamente assim que tudo aconteceu.” Ele diz: “Se quisermos entender esse fenômeno, estas são as peças que realmente importam.”
Se tentássemos modelar o touro real, i.e., seus pelos, sua força, sua carne, naufragaríamos nos detalhes. O que Picasso faz é libertar o touro da tirania da aparência. No fim, a pergunta não é “o que ficou de fora?”, mas “o que passamos a ver que antes estava escondido?”.
O que perdemos e por que vale a pena perder
Toda simplificação gera perdas. Ao transformar um conjunto imenso de variações políticas em duas ou três variáveis centrais, abrimos mão de nuances, histórias individuais, contextos específicos. Mas, ao fazer isso, ganhamos capacidade de explicar, comparar e generalizar.
A estética mínima do touro 11 não é pobreza visual. É domínio da técnica. O mesmo vale para modelos: quanto mais precisos, mais parecem simples. Mas essa simplicidade esconde uma longa trajetória de trabalho intelectual.
Picasso só pôde reduzir o touro a algumas linhas porque conhecia profundamente a anatomia do animal, as técnicas da litografia e a própria história da arte. Da mesma forma, cientistas (políticos) só podem simplificar a realidade porque carregam, por trás da simplificação, uma grande quantidade de conhecimento acumulado. Da mesma forma que Picasso, o cientista político não quer descrever cada detalhe de uma eleição, de uma coalizão, de uma votação. Quer entender o mecanismo que move esses fatos.
A simplicidade final é resultado de complexidade processada:
- A hipótese depurada só existe porque outras hipóteses foram testadas e rejeitadas.
- A variável central só se destaca porque outras se mostraram irrelevantes.
- A explicação final só parece óbvia porque alguém fez o trabalho duro de torná-la assim.
Em última instância, modelos não são artefatos técnicos. São formas de pensamento.
Por que isso importa para quem estuda política hoje
Vivemos saturados de dados, interpretações e simplificações superficiais. Há atores demais, instituições demais, eventos demais, causas demais. A primeira reação é tentar segurar tudo ao mesmo tempo, como se o entendimento viesse da soma infinita das partes. Modelos científicos podem funcionar então como um antídoto, porque eles não fingem explicar tudo, mas se esforçam para explicar melhor.
Tomemos as tentativas de explicar a queda de popularidade de um governo no Brasil. Há sempre muitas causas possíveis: inflação, desemprego, conflitos entre ministérios e suas prioridades, impasses com o Congresso, choques internacionais, problemas de comunicação, crises políticas, decisões impopulares. O mundo oferece um touro cheio de volumes. Ao “modelar”, não podemos carregar tudo ao mesmo tempo. Selecionamos poucos fatores. Por exemplo, avaliação da economia e conflito Executivo-Legislativo porque sabemos, pela literatura, que explicam mais do que os demais fatores. Não é negar complexidade, mas depurá-la. É remover linhas para revelar a forma.
Pablo Picasso, Le Taureau (n. 11)
Ao olhar para o touro 11 de Picasso, muita gente acha que poderia ter feito aquilo. O desenho é quase infantil. Mas o maior engano aqui é achar que o valor está na linha, não no processo. “Picasso acabou por onde deveria ter começado”, disse Mourlot. Mas é justamente esse o erro: ninguém começa pela última linha. A simplicidade é sempre o resultado.
O mesmo vale para modelos: quanto mais elegante parece o resultado, mais trabalho invisível existe por trás. E é justamente a combinação entre rigor, depuração, clareza e propósito que torna os modelos uma das ferramentas mais poderosas da Ciência (Política).
Em Ciência Política, quando tentamos explicar por que um governo cai, por que um partido cresce, por que um eleitor muda de posição, por que uma instituição resiste, tentamos encontrar as linhas fundamentais que sustentam o desenho.
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Grande Adriano. Belíssima aula.
Eisenstein dizia que o cinema está no roteiro.
O touro também.
Obrigado.
Abração.