Por que quase ninguém sabe escrever um bom resumo acadêmico (2 de 3)
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série ciência da ciência
Quem lê artigos científicos com alguma regularidade aprende rápido uma coisa: o resumo decide tudo. Decide se o texto será lido integralmente, citado na sua tese ou dissertação, compartilhado com colegas do grupo de pesquisa ou ignorado (e amaldiçoado pelo tempo que nos fez perder lendo o resumo...). Ainda assim, ele costuma ser tratado como um detalhe burocrático. Algo que se escreve no fim do artigo, com pressa, logo antes de submetermos a alguma revista cujo editor é, em geral, um sádico.
Mas isso é um erro. O resumo não é um apêndice do artigo. Ele é o artigo, só que em miniatura.
No ensaio anterior, mostrei como o formato IMRaD surgiu e se consolidou como padrão da comunicação científica na escrita do artigo completo.
Aqui, a pergunta é outra: se a estrutura é conhecida e está disponível, por que então ela é ignorada, ou mal utilizada, ou odiada, especialmente quando escrevemos nossos resumos?
O que um bom resumo precisa fazer
Todo bom resumo responde a quatro perguntas simples e exigentes:
· Por que você começou? (problema, lacuna, relevância)
· O que você fez? (objeto, dados, método)
· Que resposta você obteve? (resultados; mas lembre-se: resultados não são apenas ‘números’)
· O que isso significa? (interpretação, implicações, conclusões)
O IMRaD é apenas a tradução estrutural dessas perguntas em 200 palavras ou menos. Um bom resumo é aquele que consegue respondê-las com clareza, economia e franqueza (às vezes não se encontra nada de tão revolucionário assim, ou as conclusões não são tão brilhantes como gostaríamos).
O problema dos resumos genéricos
Um erro comum é imaginar que o resumo serve para “dizer do que o artigo trata”. Não serve. O resumo serve para demonstrar competência científica em pouco espaço. Ele mostra se você sabe formular um problema, delimitar um objeto, apresentar métodos adequados, relevar resultados e interpretá-los sem exagero (aliás, um problema sério na área de ciência da saúde, e mais ainda com o advento dos resumos escritos com assistência de IA, o exagero virou regra).
Por isso, resumos muito vagos, genéricos soam suspeitos porque dizem muito, mas nada de importante. Quando um resumo se limita a anunciar que o artigo vai “analisar” ou “discutir”, sem afirmar resultados, o leitor(a) identifica imediatamente o truque retórico. O erro mais comum é simples: muitos resumos não têm resultados. Nem concluem nada.
O que não fazer
Mas seguir o modelo IMRaD para o seu resumo não é igual a preencher um formulário respondendo às 4 perguntas de qualquer maneira. Erros recorrentes incluem transformar o resumo numa introdução longa e sem foco, usar o jargão da área para esconder conclusões fracas ou ausentes, prometer mais do que o artigo entrega ou apenas repetir frases do texto principal catadas às pressas. Outro erro clássico é escrever o resumo muito antes do artigo ou da pesquisa. Ele deve ser escrito por último, quando os resultados e a discussão já estão claros. Muitas vezes é justamente aí que quebramos a cabeça: o que mesmo que eu descobri?
Mas nada é tão simples assim... Críticas sociológicas e institucionais ao IMRaD
Se você chegou até aqui (ou porque tem de escrever o maldito resumo, ou porque quer saber até onde esse “positivista” vai com essa conversa), saiba que há três referências críticas que valem ler sobre o assunto (deve haver muito, muito mais, eu conheço essas):
· Bazerman, C. (1988). Shaping written knowledge: The genre and activity of the experimental article in science. University of Wisconsin Press.
· Hyland, K. (2004). Disciplinary discourses: Social interactions in academic writing. University of Michigan Press.
· Lamont, M. (2009). How professors think. Harvard University Press.
Bazerman mostra que o artigo científico é um gênero retórico institucionalizado, cuja forma estabiliza expectativas sobre o que conta como comunicação científica legítima. o IMRaD tende a funcionar como um filtro simbólico
Hyland evidencia que estruturas textuais funcionam como marcadores de pertencimento disciplinar, sinalizando conformidade com normas implícitas das comunidades acadêmicas.
E Lamont demonstra que, sob restrições reais de tempo e atenção, critérios formais frequentemente operam como atalhos cognitivos na avaliação por pares.
Esses trabalhos não questionam o IMRaD como forma de organizar o texto científico, mas chamam atenção para um efeito institucional indesejado: quando adotado de modo acrítico, o formato tende a se transformar, nos processos de avaliação, em um filtro informal de inclusão e exclusão de artigos.
O problema, portanto, não é o formato, mas o uso institucional que se faz dele.
O que ainda falta aprender
Escrever bons resumos exige treino, leitura e disposição para cortar excessos. Um resumo não é o lugar para mostrar tudo o que você sabe. É o lugar para mostrar que você sabe o que importa no seu artigo (ou tese, ou dissertação, ou o diabo). Vivemos em um ambiente completamente saturado de informação. Quando o resumo é ruim, todo o esforço da pesquisa pode desaparecer.
Para quem escrevi este ensaio?
Este texto organiza minhas várias notas de aula, bem caóticas, que fiz ao longo dos anos para cursos de redação científica. Ele foi pensado principalmente para pós-graduandos, jovens docentes e pesquisadores, autores que já escrevem artigos, mas sentem que algo não funciona bem, quem atua como editor, parecerista ou orientador, e leitores interessados em escrita científica.
Nota de advertência de uso de IA: Este ensaio começou como um amontoado de anotações para aulas, exemplos, gráficos e referências, tudo em slides de Power Point, convertidos em um rascunho bem preliminar. O ChatGPT 5.2 ajudou a organizar e revisar esse material, pondo em ordem as ideias. O Claude Sonnet 4.5 entrou depois, no papel menos generoso de leitor crítico e implicante encarregado de apontar incoerências, inconsistências e as falhas nos argumentos. Acredite-me, ele me criticou sem piedade. Reformulei então várias passagens.


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