Quadros técnicos ou peças substituíveis? A dança das cadeiras na equipe econômica (1964-2016)
Ministros da Economia caem mais por brigas internas do que por incompetência.
Roberto Campos, ministro de Castello Branco, em 1992 (Foto: Bia Parreiras/EXAME).
Na política brasileira, fala-se muito sobre quem entra no governo. Mas pouco se discute sobre quem sai – e por quê. Em parceria com colegas da UFPR, investiguei um aspecto pouco explorado nessa literatura: a duração dos mandatos e as razões de saída dos ministros da área econômica ao longo de cinco décadas, atravessando tanto o regime ditatorial-militar quanto a democracia.
Referência: Codato, A., Perissinotto, R. M., Dantas, E. G., Franz, P., & Nunes, W. (2018). A instabilidade da equipe econômica do governo brasileiro. In R. Pires, G. Lotta & V. E. de Oliveira (orgs.), Burocracia e políticas públicas no Brasil: interseções analíticas (pp. 299–325). Brasília: IPEA/ENAP. https://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/8615
Nosso estudo analisou quatro cargos centrais da política econômica federal: os ministros da Fazenda, do Planejamento, do Desenvolvimento e os presidentes do Banco Central, entre 1964 e 2016.
O que está por trás da estabilidade ou instabilidade desses postos? E o que isso nos revela sobre o funcionamento do governo brasileiro?
Por que isso importa?
A troca frequente de ministros não é apenas uma curiosidade política ou de cientistas políticos. Ela pode afetar diretamente a continuidade administrativa e a implementação de políticas públicas. Toda mudança no alto escalão tende a desorganizar equipes, interromper programas e redefinir prioridades.
Além disso, ministros costumam moldar suas pastas com base em visões pessoais e relações de confiança. Quando são substituídos, esses vínculos se rompem. Em áreas técnicas e sensíveis como a econômica, isso pode ter efeitos duradouros, especialmente em contextos de crise.
O que revelaram os nossos dados?
Analisamos 109 mandatos ocupados por 88 indivíduos naqueles três ministérios e no Banco Central. Os resultados mostraram padrões distintos entre os dois regimes políticos:
Durante a ditadura militar, os ministros da área econômica ficaram, em média, 997 dias no cargo (cerca de 2 anos e 7 meses).
Durante a democracia, a média caiu para 550 dias (1 ano e 6 meses).
Essa diferença não decorre, necessariamente, de maior harmonia interna na ditadura. Os dados sugerem que havia mais estabilidade porque o presidente (o general-ditador) tinha maior controle sobre a composição da equipe e menor pressão de coalizões partidárias ou da opinião pública.
Dois ministérios se destacam:
A Fazenda e o Planejamento foram os mais estáveis durante o regime militar. No Planejamento, por exemplo, os ministros ficavam em média 1.328 dias na ditadura, contra 328 na democracia – uma diferença de 4 para 1.
Já o Banco Central mostrou relativa continuidade entre os dois regimes (medianas de 557 e 474 dias, respectivamente), sugerindo que sua condição técnico-burocrática garantiu certa proteção contra as turbulências políticas.
Delfim Netto, ministro da Fazenda de Costa e Silva, em 1967 (Foto: Folhapress).
Por que esses ministros caíram?
Ao longo de 51 anos, identificamos nove motivos distintos para a saída dos ministros da área econômica.
O mais frequente, de longe, foram os conflitos internos com o presidente ou outros membros do gabinete – 43% dos casos no total. Em seguida, aparecem os escândalos (18%). Curiosamente, apenas dois ministros foram afastados por baixo desempenho.
Durante a ditadura, 73% das saídas antecipadas se deram por conflitos políticos internos. Já na democracia, esse número cai para 36%, e os escândalos ganham maior espaço. Um dado contraintuitivo: apenas 10% dos ministros deixaram o cargo para disputar eleições, mesmo em plena vigência do regime democrático.
Quem sobrevive mais tempo no cargo?
Testamos se características pessoais influenciavam a sobrevivência dos ministros no cargo.
Entre elas:
Ser ou não político de carreira;
Ter experiência no Legislativo;
Vir do mercado ou do setor público;
Ter formação em Economia;
Ter mais ou menos tempo de carreira.
Nenhuma dessas variáveis mostrou impacto estatisticamente significativo.
O que realmente faz diferença são fatores sistêmicos, como o regime político e a ocorrência de crises econômicas.
Com base em testes estatísticos de sobrevivência – particularmente o modelo de Kaplan-Meier, usado para estimar a duração de um evento até seu encerramento (neste caso, a demissão) – identificamos padrões claros:
Um ministro que atua durante a democracia tem cerca de duas vezes mais chances de ser exonerado em relação ao período da ditadura.
Quando há crise econômica, essa chance quase quadruplica. Crises prolongadas de inflação ou estagnação tornam a posição do ministro mais vulnerável.
Nota técnica: usamos curvas de Kaplan-Meier, típicas da epidemiologia, para calcular as chances de “sobrevivência” no cargo ao longo do tempo. Isso nos permitiu comparar mandatos completos com os que terminaram precocemente. Em seguida, aplicamos testes estatísticos (como o log-rank) para verificar se variáveis como regime político e contexto econômico afetam essas chances. Os resultados foram significativos para ambas.
Guido Mantega, economista e ministro da Fazenda nos governos Lula e Dilma I, foi o titular que mais tempo permaneceu no cargo desde a redemocratização, liderando a política econômica brasileira entre 2006 e 2014 (Foto: InfoMoney, 2014).
Estabilidade demais ou de menos?
Demissões constantes podem indicar desorganização, falta de articulação ou crises internas no governo. Mas, paradoxalmente, uma equipe excessivamente estável também pode ser sinal de paralisia, falta de renovação ou resistência a mudanças.
Em regimes democráticos, o rodízio de ministros pode ser uma válvula de escape. Serve para acomodar aliados, ajustar rumos ou reagir a pressões externas. Por isso, a instabilidade pode ser funcional – mas só até certo ponto.
Nosso achado central é que nem o prestígio técnico nem o capital político individual garantem longevidade no cargo. O que define a permanência de um ministro da área econômica são variáveis que escapam ao seu controle direto: a conjuntura política e, sobretudo, o estado da economia.
Joaquim Levy foi o ministro da Fazenda que ficou menos tempo no cargo desde 1995, 11 meses e 18 dias (Foto: Evaristo SA/AFP).
Em resumo...
Ministros da Economia, mesmo os mais técnicos, são figuras políticas. A ideia de que a competência técnica basta para os blindar das dinâmicas políticas se mostrou equivocada.
A estabilidade ministerial depende mais do contexto do que do currículo.
Em tempos de crise – e em democracias fragmentadas como a brasileira – ministros se tornam peças substituíveis num jogo instável.
Estudar essas saídas não é só um exercício descritivo: é uma chave para entender o funcionamento do Executivo e os limites reais da gestão pública no Brasil.




