Quando a democracia atrapalha
por que os brasileiros aceitam abrir mão de direitos e regras
Uma pesquisa nacional do INCT ReDem mostra que o apoio dos brasileiros à democracia é forte — mas também condicionado. Defendemos princípios liberais, até que eles entrem em conflito com nossas preferências políticas imediatas.
Presidente Lula da Silva, junho de 2025. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.
Acabamos de concluir uma pesquisa nacional que revela algo incômodo sobre como os brasileiros enxergam a democracia. Os resultados desafiam a ideia de que estamos divididos entre dois campos opostos, um autoritário e outro democrático. Em vez disso, mostram contradições profundas e generalizadas nas atitudes políticas da população.
A pesquisa foi realizada em fevereiro de 2025 com uma amostra nacional de 1.504 pessoas. Uma das perguntas que os resultados do survey permitiria responder é: o quanto os brasileiros realmente estão dispostos a defender princípios democráticos quando esses princípios entram em conflito com suas preferências políticas?
O que encontramos poderia ser chamado de o “paradoxo democrático brasileiro”: uma população que, em tese, valoriza os princípios da democracia liberal, mas que, diante de situações concretas, frequentemente admite abrir mão deles.
Entre o ideal e a conveniência
A democracia não é um conceito unívoco. Ela pressupõe o equilíbrio entre diferentes princípios que muitas vezes entram em tensão. Para entender melhor como os brasileiros lidam com essas tensões, construímos um modelo baseado em duas dimensões fundamentais:
Proteção de minorias versus vontade da maioria
Controles institucionais versus concentração de poder presidencial
Essas tensões aparecem, por exemplo, quando o Judiciário barra ações do Executivo, quando grupos sociais reivindicam direitos que desagradam parte da população ou quando o Congresso freia políticas de um governo popular. Como as pessoas reagem nesses casos? Seguem defendendo os princípios democráticos ou os abandonam em nome da “eficiência” ou da “vontade popular”?
O paradoxo em números
Os dados mostram uma aparente adesão generalizada a princípios democráticos abstratos. Por exemplo, 83% dos entrevistados disseram que é “muito importante” proteger os direitos das minorias. E 70% defenderam que os tribunais devem ser capazes de impedir ilegalidades do governo.
No entanto, quando as perguntas colocam esses valores em conflito com a vontade da maioria ou com o poder do Executivo, o cenário muda:
47% afirmaram que a maioria deve conseguir o que quer, mesmo que isso restrinja direitos das minorias.
52% acham que as minorias devem sempre aceitar a vontade da maioria.
44% concordam que o presidente pode ignorar decisões judiciais consideradas “tendenciosas”.
48% aceitam que o Congresso seja ignorado se estiver atrapalhando o governo.
Ou seja, os mesmos entrevistados que afirmam valorizar os pilares do liberalismo político também aceitam medidas autoritárias em nome da governabilidade ou do “interesse da maioria”. Trata-se de um padrão ambíguo, mas consistente: defendemos princípios, até que eles se tornem um obstáculo.
Debate Lula versus Bolsonaro em 2022. Imagem: Reuters/Mariana Greif.
Parêntese metodológico
Para chegar a esses resultados, aplicamos um questionário estruturado, com escalas de 0 a 10, em uma amostra estatisticamente representativa da população brasileira. As perguntas avaliavam tanto valores abstratos (como o apoio a direitos das minorias), quanto atitudes frente a situações em que esses direitos entram em tensão com outros princípios.
A análise foi feita em duas etapas. Primeiro, agrupamos as respostas em três categorias: apoio forte (notas 7 a 10), apoio moderado (4 a 6) e rejeição (0 a 3). Depois, comparamos essas posições com o voto declarado para presidente em 2022 no primeiro turno (Lula ou Bolsonaro), verificando se havia padrões distintos entre os dois grupos. Para isso, usamos testes estatísticos simples, como o qui-quadrado, que nos ajudam a identificar se as diferenças observadas são reais ou apenas fruto do acaso.
Yanka Romão/Arte/Metrópoles.
Lula versus Bolsonaro: surpresas na polarização
A análise por eleitorado trouxe os resultados mais surpreendentes. A expectativa comum era de que eleitores de Jair Bolsonaro, por seu histórico autoritário, fossem mais propensos a aceitar medidas antidemocráticas. E que eleitores de Lula da Silva, defensor das instituições democráticas, fossem mais apegados às regras democráticas.
O que encontramos foi mais ambíguo.
De fato, os eleitores de Lula valorizam um pouco mais a proteção de minorias (87% contra 76% dos eleitores de Bolsonaro). Mas nas demais questões, especialmente aquelas que testam o compromisso com os freios e contrapesos institucionais, os lulistas demonstraram mais tolerância à concentração de poder:
49% acham que o presidente pode ignorar decisões judiciais tendenciosas (contra 42% dos bolsonaristas).
56% aceitariam que o Congresso fosse ignorado se atrapalhasse o governo (contra 46%).
Essas diferenças, embora não gigantescas, são estatisticamente significativas e um tanto reveladoras. Elas sugerem que não se trata apenas de um problema “à direita” do espectro político.
Autoritarismo situacional
Como interpretar esse paradoxo?
Uma possibilidade é que estejamos diante de um autoritarismo situacional, isto é, uma disposição a relativizar princípios democráticos dependendo de quem está no poder. Eleitores de Lula podem justificar o atropelo das instituições como uma resposta legítima a obstáculos herdados de governos anteriores. O mesmo raciocínio valia, em sentido oposto, para os eleitores de Bolsonaro.
Nessa lógica, o compromisso com a democracia é condicional, não incondicional. Ele depende do contexto, da conjuntura e, sobretudo, da identificação partidária.
Jair Bolsonaro. Foto: Gazeta do Povo.
As raízes do problema
Essa ambivalência tem raízes profundas. O Brasil nunca consolidou plenamente uma cultura política liberal no sentido clássico. Como observou o cientista político Guillermo O’Donnell, as democracias latino-americanas frequentemente adotam uma lógica “delegativa”: o presidente eleito pelo voto popular recebe um mandato quase irrestrito, com pouca paciência para contrapesos institucionais.
Essa tradição, combinada com décadas de hiperpersonalização da política e uma forte expectativa de entregas imediatas por parte dos governantes, ajuda a explicar a tolerância com medidas que fragilizam o equilíbrio entre os poderes.
Implicações para a democracia brasileira
Os resultados da pesquisa não são necessariamente um diagnóstico terminal. Mas eles impõem um alerta.
Por um lado, há um consenso razoável sobre a importância de valores democráticos básicos. Por outro, há também uma disposição significativa a abrir mão desses valores quando eles entram em conflito com preferências políticas. Isso cria um campo fértil para líderes populistas e autoritários explorarem brechas institucionais em nome da vontade popular.
Mais ainda: os dados mostram que a polarização brasileira não se organiza em torno de uma clivagem entre democratas e autoritários. Em vez disso, ela expõe uma tensão generalizada entre princípio e conveniência.
Lula em fins de 2022. Foto: Fátima Meira/Futura Press/Estadão
Conclusão: democracia como convicção, não como instrumento
Fortalecer a democracia no Brasil exige mais do que reformas institucionais ou vigilância contra líderes extremistas. Exige cultivar uma cultura política que trate a democracia como valor inegociável e não como ferramenta conveniente.
Se quisermos garantir a resiliência democrática em tempos turbulentos, será preciso ensinar e aprender que o respeito a direitos e regras não deve depender de quem ocupa o Planalto, nem de qual é a próxima votação no Congresso.
#DemocraciaBrasileira
#PolarizaçãoPolítica
#CiênciaPolítica
#ParadoxoDemocrático
#AtitudesPolíticas
#PesquisaDeOpinião
#AutoritarismoSituacional
#InstituiçõesDemocráticas
#CulturaPolítica
#DemocraciaEmCrise






pergunta honesta: isso seria uma característica de uma “democracia liberal que nunca se completou” ou uma característica das democracias liberais em geral? é uma questão brasileira/latino-americana ou as democracias liberais possuem uma espécie de espaço de manobra para o autoritarismo mesmo?