Quando em ciências sociais explicar tudo é que é “o” problema
(parte 6 de 6)
O que a causalidade metonímica ajuda a ver e a desver.
Coleção ciência da ciência
Por que escrevi esta série?
Esta série nasceu menos de um desejo abstrato por teorização do que de uma necessidade pessoal de autocompreensão.
Ao escrever meu memorial para professor titular, precisei explicar, antes de tudo para mim mesmo, a trajetória intelectual que me levou das grandes explicações baseadas em causalidade estrutural ao uso crescente de modelagem estatística formal.
A causalidade estrutural nunca me foi inteiramente satisfatória: seu alto nível de generalidade, sua tendência à irrefutabilidade e sua vocação para explicar “grandes processos” (o funcionamento geral do capitalismo e suas fases, o desenvolvimento periférico, a transição de uma sociedade agroexportadora para uma sociedade urbano-industrial etc.) dificultam sua aplicação a fenômenos políticos discretos.
Esses atributos, assim como seus problemas epistemológicos (critério de validação, possibilidade de erro, relação com evidências) e explanatórios (nível de abstração, hipóteses testáveis, mecanismos causais), tornam esse aparato pouco manejável quando a pergunta é mais modesta e mais discreta: como explicar a emergência de outsiders em conjunturas críticas distintas e em países com sistemas eleitorais e partidários diferentes? (Coisa de todo cientista político numa quarta-feira pela manhã antes do café, por exemplo).
Para esse tipo de problema (que é, convenhamos, um problema típico de Ciência Política), causas localizáveis e variáveis específicas parecem indispensáveis. E, em geral, modelos empíricos funcionam: coeficientes fazem sentido e testes são significantes. Se o p-valor é < 0,05 podemos dormir em paz. Ainda assim, falta algo na explicação. Foi essa sensação persistente de insuficiência – entre, de um lado, estruturas que explicam demais e, de outro, modelos que explicam de menos – que motivou esta série.
Fayga Ostrower. Serigrafia a cores sobre papel (1974). Instituto Fayga Ostrower
O que a causalidade metonímica permite enxergar?
A noção de causalidade metonímica oferece uma resposta estranha: fenômenos políticos discretos não dependem de uma causa, de uma decisão ou de uma variável-chave, mas de padrões estruturais que operam por meio de efeitos parciais, rotinizados e distribuídos ao longo do tempo. Nessa perspectiva, a estrutura não é a entidade oculta “por trás” dos dados. Ao contrário, ela só se revela nos próprios processos que se repetem. Crises tornam-se, então, momentos privilegiados de visibilidade dessas estruturas.
E crises políticas são momentos privilegiados de observação justamente porque rompem o funcionamento rotinizado das instituições. Na formulação de Lacan, todo arranjo simbólico carrega em si um limite que ele mesmo não consegue resolver, uma tensão que a rotina cotidiana mantém encoberta, mas não elimina. Aquilo que, em períodos de estabilidade, opera de forma difusa e silenciosa (padrões de exclusão, hierarquias informais, arranjos herdados do passado que condicionam e limitam as opções disponíveis no presente) torna-se visível justamente quando a estrutura trava. Nesse sentido, crises são expressões concentradas de desajustes estruturais que estavam invisíveis.
Ao mesmo tempo, crises criam janelas analíticas para identificar mecanismos conjunturais específicos. Decisões excepcionais, alianças improváveis, mudanças abruptas de regras e intervenções estratégicas de certos atores ganham relevância explicativa justamente porque ocorrem sob condições extraordinárias.
Aqui reside o desafio analítico: distinguir quando uma crise revela “estruturas profundas” que bloqueiam a mudança ou quando abre espaço genuíno para a contingência (decisões que poderiam ter sido outras). A causalidade metonímica tende a ler tudo como estrutura. Mas às vezes uma crise é só uma crise, assim como um charuto é só um charuto. Reconhecer isso é tão importante quanto identificar padrões profundos.
O risco: quando a explicação sempre vence
O raciocínio “estrutural” tem um alto preço científico a pagar. Ao permitir que estruturas sejam inferidas a partir de seus efeitos, a causalidade metonímica corre o risco de explicar qualquer resultado com a mesma elegância conceitual. Se tudo confirma a estrutura, nada a ameaça. E quando uma teoria nunca perde, o problema deixa de ser empírico e passa a ser epistemológico. O triunfo explicativo, nesse caso, é o seu defeito.
Nem abandonar o método, nem fetichizar da estrutura
Regressões, experimentos naturais ou equações estruturais continuam sendo ótimos para estimar relações, desde que saibamos exatamente o que estamos pedindo a eles. Servem para identificar padrões, testar hipóteses específicas, quantificar efeitos, mas não para capturar diretamente estruturas profundas. Tampouco estamos (estou), por outro lado, autorizados a substituir análise empírica por metáforas inspiradas.
A contribuição da noção de Althusser-Miller de causalidade metonímica é de outra ordem: ela ensina a desconfiar quando modelos funcionam bem tecnicamente, mas deixam padrões sistemáticos sem explicar. Nesses momentos, só nesses, vale investigar se não há algo mais profundo operando “nas costas dos agentes”, como se falava na Rue d’Ulm***.
Bons modelos não garantem automaticamente boas explicações. Mas, infelizmente, boas metáforas não substituem bons modelos.
Para que serve tudo isso?
O objetivo desta série foi apenas provocar no(a) leitor(a) um desconforto específico que está em mim mesmo: às vezes, o problema não está nos “dados”, mas no tipo de causalidade que estamos dispostos a aceitar e naquilo que queremos explicar.
Se isso levou alguém a desconfiar um pouco mais de explicações que sempre vencem, inclusive e principalmente das estruturalistas, então o esforço (mais de ler do que de escrever) já se pagou.
Teorias que nunca falham raramente explicam.
Referências (para quem quiser ir às fontes)
Althusser, L. (1965). Pour Marx. Paris, France: François Maspero.
Aveline, F. (2022). Entre Marx e Spinoza: dialética e epistemologia no “segundo” Althusser (1974-1976). Revista Aurora, 15(1), 171–190. https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/aurora/article/view/12661
Frederico, C. (2022, 16 de fevereiro). Althusser e a ideologia. A Terra é Redonda. https://aterraeredonda.com.br/althusser-e-a-ideologia/
Gonsalves, R. (2016, 25 de fevereiro). Entre psicanálise e marxismo: uma radical intersecção. LavraPalavra. https://lavrapalavra.com/2016/02/25/entre-psicanalise-e-marxismo-uma-radical-interseccao/
Miller, J.-A. (1966). La suture: Éléments de la logique du signifiant. Cahiers pour l’Analyse, (1), 37-49.
Montag, W. (2018, 15 de maio). O espectro de Althusser. LavraPalavra. https://lavrapalavra.com/2018/05/15/o-espectro-de-althusser/
Morfino, V. (2014). A causalidade estrutural em Althusser. Lutas Sociais, 18(33), 102-116. https://doi.org/10.23925/ls.v18i33.25744
Steimberg, R. (2016). De la identidad a la diferencia: Althusser y la causalidad estructural. Enfoques, 28(1), 93-117. https://www.redalyc.org/journal/259/25955333005/html/
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***A rue d’Ulm é onde fica a Escola Normal Superior, onde Althusser ensinava, onde Lacan foi fazer seus seminários depois da briga. Ela fica bem perto da Place de l’Estrapade. Nessa praça, no número 1, é onde mora Emily em Paris. Fica a dica cultural.

