Quem quer subir na política? Cor, gênero e ambição no Congresso Nacional
O que acontece com os parlamentares não brancos depois que eles são eleitos. Eles têm as mesmas ambições políticas que os deputados brancos?
Apesar do aumento de 36,25% das candidaturas de pretos e pardos para a Câmara dos Deputados em 2022 frente a 2018, o número de candidatos efetivamente eleitos com essas características autodeclaradas cresceu apenas 8,94%. Neste ano, pretos e pardos eleitos somam, respectivamente, 27 e 107; em 2018, eles eram 21 e 102. Fonte: Agência Câmara de Notícias
A sub-representação racial na política brasileira
É incontestável a desigualdade na representação política no Brasil. Pretos e pardos formam mais da metade da população (56%, segundo o IBGE), mas ocuparam menos de 25% das cadeiras da Câmara dos Deputados nas eleições de 2018. Pesquisas anteriores já mostraram que essa disparidade não decorre da ausência de candidaturas negras, mas sim das menores chances de esses candidatos se elegerem.
Em vez de nos concentrarmos apenas nas barreiras de entrada, como já fez a literatura, investigamos neste estudo um outro aspecto da desigualdade: o que acontece com os parlamentares não brancos depois que eles são eleitos. Eles têm as mesmas ambições políticas que os deputados brancos? E, sobretudo, têm as mesmas chances de transformar essas ambições em avanço na carreira?
Para responder a essas questões, analisamos os 513 deputados eleitos em 2014 e suas decisões e resultados nas eleições de 2018.
Referência: Codato, A., Sainz, N., Gabriel, G., & Picussa, R. (2022). Cor, gênero e ambição política no Brasil. In M. Inácio & V. E. de Oliveira (orgs.), Democracia e eleições no Brasil (pp. 63–76). Hucitec.
Como medir ambição política?
Classificamos as opções de carreira em quatro tipos:
Progressiva: quando o deputado tentou um cargo mais alto, como senador, governador ou presidente;
Estática: quando buscou apenas a reeleição como deputado federal;
Regressiva: quando se candidatou a um cargo considerado de menor prestígio (vereador, deputado estadual etc.);
Discreta: quando não disputou nenhum cargo.
A hierarquia usada é simples: cargos federais (exceto suplência) estão acima dos estaduais, que por sua vez estão acima dos municipais. O Senado foi considerado promoção em relação à Câmara; o contrário vale para cargos como vice-prefeito ou suplente de senador.
Essa estrutura permite observar se os parlamentares pretendem permanecer, avançar ou recuar em suas carreiras.
Coordenador-geral da bancada negra, deputado Damião Feliciano (União-PB) na tribuna da Câmara em 2023 (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados).
Como testamos as hipóteses?
Para comparar as chances de sucesso de cada grupo, aplicamos dois testes estatísticos:
Razão de chances (odds ratio): mede a probabilidade de um evento ocorrer (como ser eleito) em um grupo comparado ao outro. Um valor abaixo de 1 indica maior chance de fracasso; acima de 1, maior chance de sucesso.
Teste do qui-quadrado: avalia se há associação estatística entre duas variáveis (como cor e ambição). Se os resultados são aleatórios ou se há uma relação consistente, com significância estatística.
Traduzindo: buscamos saber se a cor e o gênero do parlamentar influenciam, de forma sistemática, suas ambições e seus resultados eleitorais.
A chance dos políticos profissionais
Nossa primeira hipótese era que deputados pretos e pardos teriam menores chances de êxito ao buscar cargos mais altos.
Os dados mostram que essa diferença existe, mas é pequena e estatisticamente não significativa:
Deputados não brancos que tentaram ascensão política em 2018 tiveram 75% de chance de fracasso (odds ratio = 0,252);
Deputados brancos, 69% de chance de fracasso (odds ratio = 0,315).
Em outras palavras, subir na hierarquia política é difícil para todos, independentemente da cor. O que reforça uma tese já bem estabelecida: a principal barreira para negros e pardos está no início da carreira, no recrutamento, no financiamento e na viabilização das candidaturas.
Já quando se trata de buscar a reeleição, a história muda:
Deputados brancos tiveram 2,9 vezes mais chance de sucesso do que de fracasso;
Deputados não brancos, 2,6 vezes — uma diferença pequena e também sem significância estatística.
A conclusão é clara: manter o mandato é a opção mais segura para todos os grupos. Já avançar na carreira é arriscado — e desigualmente difícil desde o começo.
Quando raça e gênero se cruzam
Nossa segunda hipótese envolvia um recorte mais específico: as deputadas federais.
Investigamos se mulheres brancas demonstravam mais ambição política do que mulheres negras.
A resposta foi sim. Das 51 deputadas da legislatura, as pretas e pardas tiveram comportamento distinto das brancas:
Estavam fortemente associadas à ambição regressiva — ou seja, deixaram a Câmara e disputaram cargos de menor expressão;
Tiveram baixa propensão à reeleição (ambição estática);
Já as mulheres brancas mostraram maior tendência a permanecer na Câmara, tentando se reeleger.
Esse resultado foi estatisticamente significativo (p = 0,007, com força de associação moderada, Cramer’s V = 0,49), e reforça a importância de analisar a interseccionalidade entre cor e gênero nas trajetórias políticas.
Não se trata apenas de cor ou de gênero, mas da combinação entre os dois. Mulheres negras enfrentam barreiras adicionais para permanecer ou ascender na política, ainda que já tenham rompido a primeira barreira — a eleição.
Deputada federal Reginete Bispo (PT-RS), fevereiro de 2023 (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados).
O que explica esses padrões?
Se a cor da pele parece perder importância depois da eleição, isso reforça a ideia de que a desigualdade mais dura ocorre antes: no acesso aos partidos, ao dinheiro e à visibilidade eleitoral.
Mas, para as mulheres negras, a desigualdade não desaparece com o mandato. Mesmo já eleitas, suas ambições tendem a ser mais modestas, suas campanhas menos viáveis e suas oportunidades de avanço mais escassas.
Vários fatores ajudam a explicar isso:
Menor acesso a cargos internos nos partidos;
Menos visibilidade na atuação parlamentar;
Baixo investimento em campanhas de mulheres negras;
Dificuldade de obter apoio das lideranças partidárias.
Não é que falte ambição, é que o ambiente político desestimula sua realização.
Deputada Benedita da Silva (PT-RJ) (Foto: Gabriela Korossy/Câmara dos Deputados).
Para além das urnas
Nosso estudo se concentrou na dimensão eleitoral. Mas há muito mais a ser explorado. Não analisamos, por exemplo, o papel das mulheres negras nas lideranças de bancada, nas comissões, ou no funcionamento interno da Câmara. Nem como atuam nos partidos, na formação de alianças ou na agenda legislativa.
Esses achados, ainda assim, abrem um caminho promissor: estudar carreiras políticas a partir do ponto de vista da permanência e da progressão, e não só da entrada. E mais: fazer isso considerando variáveis como raça, gênero e classe de maneira articulada.




